O dia é um vazio a ser preenchido - em meio ao Tédio é simples assim, o desafio de viver é reduzido a simplicidade de um livro de colorir, onde basta rabiscar dentro das linhas para ser elogiado. Estar entediado, em outras palavras, seria priorizar a sensação de completude, de dar lugar e lugar certo às coisas, à felicidade.. ou até deixar de acreditar em felicidade por achar que a verdadeira paz está em uma ordem neurótica sem espaço para a espontaneidade da alegria. Mas isso sou eu, só eu, um eu bem só e triste.
Meu vazio por vezes chega nas palavras e é fatal, pois completar essas lacunas tem um algo de criminoso, se a alma não emite nenhum som, merece morrer calada - assim sentencio. Sou rigoroso, portanto, e quando rascunhos não me agradam considero que seus sentimentos motores não eram tão dignos afinais e que não passariam de desdobramentos da sensação de nada, não valendo de nada, portanto.
O marasmo é massacrante, me sinto burro e fútil. Veja, prestes a entrar nos últimos meses de faculdade sem qualquer destino é fácil cair em inseguranças. Mas hoje (só hoje!) fui salvo de mim mesmo e desses pensamentos todos por um olhar canino. Gaspar, meu labrador, que às voltas das 19h30 (e o danado sempre percebe!) vence os cômodos de minha casa e sempre me encontra, orelhas em posição de alerta, testa enrugada (labrador tem o que chamam de "olhar inteligente") e caindo nas patas dianteiras quando vê e percebe meu entendimento da situação para disparar para a porta da cozinha onde eu costumo o alimentar.
Hoje fui ao encontro dele, dele e de Chulica, a vira-lata com um pouco mais de modos que Gaspar. Abri a porta da cozinha para encontrá-lo esbaforido, me seguindo depois até a sala enquanto eu perguntava ao meu irmão se já o havia alimentado, pois haviam passado das 20h... a resposta foi um óbvio "não". Enchendo sua vasilha sob seu olhar atento, mas já mais satisfeito e tranquilo, percebi que ele precisava de mim... e isso significou tudo, naquele momento. Os amantes de animais que me perdoem, mas ainda desconfio do amor nos animais, acho que são instintivos apenas, mas por der me dado esse pequeno momento de paz a eu que me senti e me sinto tão inútil, amei meu cachorro de todo o coração.
... e finalmente fiz a barba!
... e finalmente fiz a barba!
Do que estou tentando escrever em mais essa madrugada é da importância de se sentir necessário, que arrumar alguma responsabilidade (como no acordo tácito que vigora em minha casa aonde sou o encarregado da alimentação noturna de Gaspar e Chulica) pode salvar a sua vida. Quando o amor se torna muito complicado, podemos sempre apelar para o conforto de nos sentirmos necessários. Por mais que sim, qualquer um é substituível em virtualmente qualquer situação, nada te tira o prazer de um olhar sincero de gratidão.
Seja humano ou canino.
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