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31 de março de 2012

Emoções Cívicas - vamos celebrar!

Não sei até onde anda a curiosidade do leitor acerca da comemoração antecipada durante a semana da "Revolução de 1964" (que hoje completa 42 anos) pelo Clube Militar, mas, por minha parte, sinto-me suficientemente instigado para escrever. Então aí vamos nós partindo da seguinte pergunta: seria afinal uma simples excentricidade, falta de tato ou, como alardeiam e bradam os companheiros militantes e vítimas do regime ditatorial que assolou nosso país por tantas décadas, uma provocação violenta e gratuita?

Ora, talvez seja mais complicado do que isso (ou simples, a depender do modo como encarar minhas observações), pois, como historiador que sempre pondera criticamente acerca dos eventos, ciente de que as coisas não caem subitamente sobre nossas cabeças, acho que a comemoração faz perfeito sentido.

A tal "Revolução" tida mais do que corretamente pelas pessoas de bom senso como "Golpe de 1964", atingiu seu objetivo, freou qualquer espécie de reforma socialista que o governo de João Goulart pudesse estar encadeando e nos manteve em suspensão até que o comunismo se tornasse uma fantasia anacrônica diante do colapso da URSS que, em tese (ou assim nos doutrinaram), provou que Marx era um doido lido por gente que gosta de fumar maconha e de regimes ditatoriais hipócritas. Sendo assim, é algo para se comemorar, foi um sucesso!

A gente sempre aprende na cartilha... opa, perdão, nos livros didáticos que "a ditadura caiu de podre" o que suscita a interpretação simplista de que de repente o ideal democrático à parte de qualquer luta social (pois luta é sinônimo de desordem) de tão sublime corroeu a estrutura vil do regime opressor nos encaminhando naturalmente para a tão sonhada liberdade. Ou seja, estavam todos errados, os milicos com seus cassetetes e choques elétricos nos porões, porque violência é um negócio muito feio, e a esquerda enlouquecida armada de bombas e panfletos apoiada em um ideário marxista que se mostraria falho uns anos mais tarde com a queda da URSS. E então a democracia caiu dos céus e o mundo voltou a ser um lugar lindo... 

...só que não.

Vamos, por favor, espero que a essa altura tenham detectado a minha ironia ou tenham percebido por vocês mesmos que essa consciência histórica simplificada é absolutamente ignorante! Vou tentar pular algumas ironias e ir até onde quero chegar nessa história da ditadura cair de podre: nós, herdeiros involuntários do regime e opostos aos ideias que o moveram, não temos uma data para comemorar. Vejam, caros leitores, aquele pessoal não é tão excêntrico é que.. não existe um dia da democracia ou, mais importante, da justiça social porque, francamente, não acho que ela tenha chegado. E se for para brindar ou comemorar algo, que seja algo que tenha de fato acontecido, sendo assim, a comemoração do Clube Militar é algo absolutamente coerente. Já o que habita o porvir, o que ainda está fora do nosso alcance, isso não se comemora (obviamente): pelo futuro, se luta. Quem se assume de direita, está celebrando todos os dias que as coisas permaneçam como estão, a mudança aqui é que esses filhos da puta decidiram ser mais sinceros!

A ditadura caiu de podre, meus amigos, mas não nesse sentido que comummente se atribui, caiu de podre porque se tornou obsoleta: de que serve a mordaça em um povo sem voz própria? De que serve a censura se o senso comum é mais eficiente para amortecer a crítica? De que vale bater em cachorro morto? As coisas não vão bem, não, nem adianta argumentar que o Brasil está crescendo e espero sinceramente que eu não precise pontuar exatamente o porquê, para o paulistano mediano talvez basta que eu mencione a palavra "transporte" para que ele sinta calafrios... e a palavra educação para que sinta asco.

E ficam todos dizendo simplesmente que a ditadura é coisa do passado e é mesmo! Mas isso não é desculpa para não voltar os olhos para a violência que acontece agora, pois essa indignidade toda é uma violência. Bom, se acha isso muito abstrato, falemos da violência expressa: o Estado tem o monopólio da violência, ter uma força policial a seu serviço, um exército, significa isso. Algo que merece cuidado, mesmo em meio a um regime democrático como o nosso é necessária constante vigilância e crítica. Quando essa força que presumidamente seria usada para a nossa proteção é dirigida para contenção e dispersão de manifestações (e aqui falo das mais diversas, desde as movidas por causas sociais, como as de estudantes e trabalhadores, como também um agrupamento de torcedores de um time de futebol ou mesmo as manifestações duramente reprimidas contra a comemoração do Golpe no Clube Militar), nossos olhos e ouvidos tem de ficar ainda mais atentos para a percepção da violação de nosso direito de livre-expressão.

Acontece que a metáfora que atribuí a democracia (que parece simplesmente ter caído dos céus) serve aqui em relação à todas as nossas instituições: alguns parecem achar que o Estado e seus instrumentos são banhados em uma justiça divina contendo em si o senso de certo e errado o que tornaria justo esse uso de força para, antes de nos segurar, prezar pelas instituições, pelo Estado, pela "ordem". O devaneio só é amainado pela crença em meia-dúzia de homens e o grande mal da corrupção que deturbam e distorcem algo que é essencialmente bom... Isso quando não acreditam simultaneamente, sem suspeitar de nenhum contradição, que o Estado é justo e corrupto simultaneamente! Coisa pra deixar Orwell orgulhoso...

Só para ilustrar a crítica que deveria se impor, trago a tona um argumento utilizado por membros do movimento estudantil que pedem o fim dos processos contra os "presos políticos", pessoas atuadas na desocupação da reitoria, que, quando questionadas do porque do rótulo de preso político, que inevitavelmente faz alusão a ditadura, afirmam que todo preso é preso político. Eles tem lá sua razão já que toda autuação tem por detrás um projeto político e todo criminoso é assim considerado por ir contra um corpo de leis institucionalmente estabelecido. Enfim, se a acusação por eles sofrida é justa e as penas cabíveis, é um juízo que deixo para vocês, mas que reflitam sobre essa questão: quem faz as leis? Quem as faz cumprir? Quem as faz dignas de punição e prêmio? Quem permite tudo isso? A vontade do Estado é governada por uma moral absoluta e sagrada... ou uma ideologia como qualquer outra? - É política.

Ainda sobre as leis e o juízo de certo e errado, pensemos que apesar da ditadura ser inequivocamente considerada um regime atroz de violência e ignorância, não é considerada um crime por não haver culpados, parece ter sido apenas uma... infelicidade, sendo as reparações do Estado absolutamente raras e as punições a nível pessoal tornadas virtualmente impossíveis com a anistia. Sendo assim, parece tão absurdo que comemorem o aniversário da "Revolução de 1964"? O sorriso vai de orelha a orelha!

E quem prosperou na ditadura segue aí feliz e sorridente já que, por ser coisa do passado, estão insuspeitos, anistiados e ricos. Meios de comunicação, notadamente colaboracionistas à época do regime, continuam nossos olhos e ouvidos; políticos e influentes (e suas famílias) seguem donos informais do poder. E o país do futuro segue sem passado, pois, negando o fantasma do ditadura só por ser "coisa do passado", nos tornamos uma nação sem memória. Não, como o clichê sugere, destinado a repetir seus erros, mas acanhado em uma ignorância que sempre se reinventa para continuar a mesma, pois os que estão lá em cima não estão lá a toa, são espertos o suficiente para nos darem sempre novos brinquedos.

Agora vai e me conta: quais os seus planos para o fim de semana? Qual é o seu projeto de vida para os próximos anos? Acha mesmo que isso vai ajudar em alguma coisa? Teu raio de ação vai além do seu voto a cada dois anos? Você pelo menos tenta? Aposto que não... e nem reclama mais. Vai lá amigão, pode pegar seu copo e brindar que a festa também é sua!

23 de dezembro de 2011

Pensamentos soltos de fim de ano

Chegou de novo, época de Natal, Ano Novo, onde tudo é muito mundano e teatral - mais do mesmo mais uma vez! - gritaria impassivo pelas ruas, vitrines e enfeites da avenida Paulista, se pudesse... se quisesse. Alvejado por tantos sorrisos e abraços de meus familiares, admito, sou obrigado a amolecer. Nesse clima de desassossego e esperança, estava lendo um artigo do Frei Beto outro dia e certas reflexões me pareceram inevitáveis. Ensinaram-me, e sou obrigado a concordar por força da experiência, que escrever é um bom modo de se aprender algo novo. Sendo assim, felicitados ou amaldiçoados pelas convergências de meus ensinamentos e o clima das festas, os introduzo a mais uma incursão em meus delírios.

Indagava-me, junto do texto, do que afinal seria crescer, maturar, envelhecer digna e respeitosamente. Esquartejando o ser em múltiplas infâncias e adolescências por psicologias e análises mercadológicas das mais diversas, linhas cruzadas que por dizerem tudo não dizem ou resolvem nada, fica difícil perceber uma linha reta. O tempo é constante e, por mais que nossa percepção flutue e varie, não podemos negá-lo por capricho.

Não se engane, desprezo respeitabilidades e convenções, é justo nestes nichos que repousa a imaturidade daqueles que se recusam a crescer (ou aceitar que cresceram). E não, os adultos de hoje não são como os de antigamente e nem deveriam, é no conflito geracional que se encontra o segredo de nossa evolução sombria, mas sim, são muito débeis... e talvez muitos dos de antes também o fossem em segredo, esse segredo que não mais existe graças ao admirável mundo novo esquadrinhado neste século da comunicação.

Quando criança, e muitos, como eu, devem ter feito esse juízo, eu julgava que ser adulto se resumia a meia-duzia de rituais e atividades as quais eu não me encontrava apto e algum dia, que Deus me ajudasse, eu estaria. Coisas como pagar as contas, pegar filas, fazer o pedido no caixa, ir a lugares sozinho, dirigindo ou de ônibus, e assinar cheques (que até certa idade, acreditara que dava poder infinito de compra à minha mãe). Não era a toa que minha brincadeira favorita era fingir de taxista com meu gasto e milenar volante de plástico, usando a pá de madeira no vão do sofá como câmbio de marcha e alugando minha falecida bisa como passageira. Também adorava banco imobiliário... acho que ainda gosto.

Hoje as crianças nem precisam fantasiar tanto, está tudo na mão e mastigado com jogos e simuladores cada vez mais sofisticados e banco imobiliário com maquina de cartão de crédito. Já serão ensinados, sem esforço, acerca dessa visão distorcida do que é ser adulto: estar armado de um cartão de crédito e dirigir como se não houvesse amanhã... de preferência embriagado! Afinal, poder beber é outro grande desejo atiçado desde cedo e unir as duas coisas é simplesmente irresistível... se bolinou alguma mulher na balada então, ou achou normal que acontecesse, você passou no teste com grandes honras!

Sim, é claro que como sempre eu forço a situação, mas é incrível como as coisas se encaixam, como conhecemos pessoas que cresceram com essa ideia de maturidade na cabeça e não se desfizeram dela, algo que fiz a duras penas e agora conto à vocês no decorrer do texto. Pois que, se não deixei transparecer com minhas ironias ou você não percebeu com seu bom senso até aqui, esclareço que crescer não é nada disso.

Crescer é complicado e exige prática, não vamos descobrir logo de cara o que é ser adulto em nossas primeiras concepções ainda crianças. Reiterando, a maturidade vem com a experiência, no entanto experimentações desmedidas podem causar certo amortecimento de nossos sentidos. Mas nem entrarei muito no mérito da sexualidade e de como podem ser perversos os caminhos das crianças crescidas. Concluindo, é preciso refletir a cada passo, em tudo, creio ter ficado muito mais inteligente depois que passei a escrever.

Inteligência é outra coisa que é muito mal entendida e que, assim como a maturidade, não tem muito a ver com capacidades. É terrível, assim como as pessoas acham que ser adulto é beber, transar e dirigir, julgam que ser inteligente é citar o maior número de coisas do wikipedia de cabeça ou conhecer um grande número de palavras do dicionário! Só que ele não é chamado pai-dos-burros a toa, quem é muito prolixo está se esforçando demais para provar alguma coisa, mais do que sendo ou dizendo alguma coisa.

Crescer e saber são coisas que andam juntas, é um único caminho de reflexão e responsabilidade. É preciso se ver refletido em cada uma de nossas atitudes, sejam elas quais forem, e arcar com todo o peso de suas consequências; é ter ciência própria de nós mesmos e o que fazemos, é ser capaz de ligar as coisas, ver o quadro completo, mais do que seguir manuais e pré-conceitos. São reflexões que podem pesar à princípio, mas nos fortalecem, não são um fardo, mas algo saudável e profundamente necessário.

Hoje, sou um adulto, por mais que ainda não more sozinho, esteja desempregado e a tal da independência financeira pese no juízo dos outros. Acabo a faculdade no meio do ano que vem e não estou nenhum pouco assustado, apenas ansioso (e muito, confesso), deve ser um bom sinal. Como adulto, portanto um ser maduro, completo, ciente de mim mesmo e do mundo que me cerca, pude amar como agora amo, um amor, que tal como a maturidade e inteligência, supera em muito as reflexões fabricadas pela grande mídia que nos quer crianças chorosas, burras e de paixões fugazes.

Amo aquela morena pernambucana, amo minha família, meus amigos, amo a vida! E, por mais que eu sofra em meus devaneios e ache que tudo vai de mal a pior, por mais que eu odeie o fato de toda essa euforia ser por mera convenção, vou abdicar por alguns momentos de meu eu sombrio e desejar de todo o coração às poucas e gentis almas que aceitam agora e provavelmente já aceitaram em algum momento me fazer companhia: 

Boas festas e um ótimo ano novo! 

12 de dezembro de 2011

Todos Iguais

Vivemos em uma era de vazios, isso deve ser lugar comum aqui. Sabemos o que não queremos para nosso futuro, aqueles ismos tão ultrapassados, mas nada colocamos no lugar. Quando muito fica um nadismo ou esse tal de pós-modernismo que nem sequer vida própria tem, existe em relação ao antecessor, abrange toda e qualquer estranheza que superfature ou desvalorize o que veio antes - sem novidades.

Vazios são preenchidos, esse é o perigo, do contrário não haveria problema nessa doutrina de hedonismos, buscas por prazeres instantâneos, fúteis e rápidos, de momento. Estamos entediados, mas gordos de tanta ignorância, o inverno é próspero para aqueles do lado de cá da miséria e da exploração. Devoramos o mundo incompreensível, cuspimos de volta no prato e repetimos até que cada aresta solta seja aparada em uma visão holística cada vez mais simples. E assim o vazio foi preenchido.

Temos agora uma crença mais forte do que qualquer religião que congela a estrutura do mundo, a naturaliza e a torna uma força imbatível pelo homem: acreditamos na igualdade. Vagueie na internet por um instante e vai se deparar com um punhado de referências comuns, uma língua internacional tecida fundamentalmente pelos relatos fragmentados dos jovens dos anos noventa. Sim, meus textos tão "sérios" chegam agora no ponto de comentar os tais memes da internet. Mas admita, é algo muito interessante.

Existe um site que coleta seu conteúdo de usuários ao redor do mundo submetendo-o a um sistema de votação expondo os mais populares em uma página principal. São postagens rápidas, comuns aos blogs de humor. À princípio vislumbrei certa inteligência naquela forma de humor tão dinâmico que reaproveitava piadas em outros contextos, os tais memes, criando um repertório comunitário, quase uma linguagem própria baseada no inglês. Era incrível como pessoas terminavam a piada pelas outras, ou as melhoravam, pessoas muitas vezes de outros países, de experiências muito diferentes, mas vivendo um entendimento tácito.

É possível, no entanto, que a piada tenha perdido a graça. A crença na igualdade passou como um trator sobre o mundo, o planificou em um entendimento geopolítico raso que parece dar conta de tudo. Essa nova linguagem, mesmo que baseada no humor, é perniciosa. Lembra-me vagamente a Novafala de 1984, uma língua projetada para reduzir seus vocábulos gradualmente até aprisionar o modo de pensar e de sentir e deixar a todos completamente apáticos. A diferença é que nós aqui, diferente da ficção, criamos e desenvolvemos o nosso próprio arreio de forma, até pode se dizer, espontânea.

É óbvio que estou extrapolando aqui, mas pense por um minuto no quão rápida e fácil se tornou a comunicação entre as pessoas. Temos de lidar com tudo ao mesmo tempo, já é complicado o conflito geracional de habitantes de um mesmo espaço, e presumivelmente a mesma experiência social cotidiana, agora lidamos com pessoas do outro lado do globo em um clique, nos expomos a ela... e elas entendem tudo (com facilidade)! 

Entendam, não sou nenhum fascista pregando a pureza, ou monge propondo o isolamento, mas deveria ser mais complexo do que isso. A individualidade foi saqueada e até mesmo a identidade de grupo corre perigo (entenda aqui nacionalismo, cultura ou seja lá o que for)... estamos perdendo terreno! Somos uma massa coesa destituída de sentimentos e pensamentos mais complexos do que podem ilustrar nossos memes pronta para o abate de uma entidade supraestatal que nos jogue de um lado para o outro, ping-pong com nossos olhos e ouvidos. Unidos, assim, esmagados e fúteis, pereceremos.

Mesmo aquele grupo de cyberativismo, o anonymous, em uma forma de enfrentamento do status quo presumivelmente nova, se utiliza de máscaras de Guy Fawkes, ícone de uma luta tão distante no tempo como no conteúdo. Já está começando, vê? Somos débeis até quando contestamos, incapazes de criar nossos próprios símbolos. Mas acho que entendo, graças ao filme V de vingança, a tal máscara se tornou um símbolo acessível e é preciso ser um pouco dogmático para chamar atenção, utilizar-se de algo que resuma as ideias.

Acho que somos educados para isso desde cedo procurando com o livro escolar de literatura o que Machado de Assis quis dizer ou lendo a cartilha de resumos para o vestibular. Queremos tudo mastigado. Mas tenho certeza que Machado escreveu exatamente o que queria dizer. Agora tenho. Invertemos o mundo, achamos natural a síntese como se fosse uma resposta oculta na integridade, esquecemos do que veio antes. Não permitiria que me resumissem, apenas que me introduzissem ou apressassem minha despedida, como agora necessito. Tire sua própria conclusão. Até que ponto vale a pena ser igual ao outro?

PS: Mais assustador do que tudo isso é talvez pensar que tenhamos sido os mesmos já há muito tempo e a internet só tratou de colocar em evidência a nossa incrível futilidade.

2 de dezembro de 2011

Gandhi

O texto começa com uma introdução de tópicas pouco ou nada interessantes, talvez provocativas, mas sem valor em si. Há alguma estética bem intencionada no uso de palavras mal pensadas em seu significado, mas de um sonoridade e fluência que torna a leitura agradável. O texto é apresentável e chega no ponto de encarrilhar o discurso.

Você se decepciona e, no entanto, se deixa levar: não há argumento. São parágrafos que fluem e ao mesmo tempo causam estranheza, na curva do rio da consciência se acumulam detritos de uma ideia infantil, de confusão e incompreensão, que só vem a ser recolhidos pela arrematada final que, ainda que nem se quer apresentada ou proposta, se sabe que virá.

E é isso, depois vem a despedida e a tal reviravolta como se eu lhe dissesse que entreguei o corpo de meus trabalhos escritos por não ter nada a dizer sabendo que o que quer que fosse, seria o mesmo, mas (d)escrito diferente. Estou escrevendo o mesmo texto várias vezes... estou sendo o mesmo há muito tempo.

--//--

Parti em uma jornada de auto-conhecimento recentemente, sempre nos impomos a reflexão, mas desta vez traduzi o impulso em ação e me envolvi no movimento estudantil - o que isso tem a ver? - talvez se perguntasse. É simples, a despeito da auto-imagem intuitiva, a ideia imanente de nós mesmos, existe um segundo movimento de identificação através do outro, ver se refletido no olhar alheio.

Estive lá, no coletivo particular dos estudantes, esse segmento da sociedade que pouco a pouco retoma a sua voz e, de dentro, expus-me a mim mesmo como parte daquilo, seja no reconhecimento que tinham de mim como parte do grito ou voto na assembleia ou mesmo mais um a ser educado nos preceitos revolucionários... embora essa última esteja muito errada: minha opinião ainda peca na bibliografia, mas é perfeitamente consciente. 

Agora chega o terceiro movimento dessa dialética da identidade, recapitulando: do uno ao todo e agora ao uno novamente, de volta à auto-imagem. Não tanto um retorno, mas um fortalecimento espiralado incansável em que nos sabemos indivíduos por aquilo que podemos fazer em conjunto sem se apartar da intuição, pois nega-la em definitivo seria se apartar de si mesmo, tornando fútil o exercício de auto-conhecimento.

Confuso? Com certeza! Meus parcos conhecimentos dessa tal de dialética talvez tenham tornado tudo ainda mais confuso do que já é, mas acho que é por aí, não sou escritor para querer dizer algo e escrever outra, digo sempre o que quero dizer... ou pelo menos tento. Enfim, e o que aprendi com isso tudo?

Meu eu ampliado é tão frustado quanto o diminuído. O egoísmo infantil se transforma em um altruísmo igualmente ingênuo ao querer abraçar o mundo de grandes causas e estimular a ideia do grande destino que me espera (agora no contexto da luta social). Descobri agora o porque: ainda luto contra o Tédio.

Antes era o Tédio do ser, um estado de ansiedade particular, agora se amplia para o marasmo de uma sociedade inteira que mal percebe a sua condição. Analfabetos políticos, analfabetos de si mesmo (esse que é o pior), parece que nem sentem a fome e como é ridícula essa necessidade de entretenimento, tão similar ao circunstancial do Tédio particular, mas pertencente a uma ordem natural das coisas que os quer assim.

Assim é fácil reinar neste circo de idiotas com minha inteligência mediana, se o que desejava era um destino glorioso, posso ser comigo alguém excepcional... sem que ninguém saiba, sem que ninguém perceba. Mas não agora! Depois desse mês turbulento, o egoísmo-altruísmo prossegue e percebo que toda riqueza conquistada a despeito do outro é mentirosa e criminosa - não é esse o tipo de poder que anseio.

Agora quero ser Gandhi... isso não vai acabar bem.

26 de novembro de 2011

2º Ato

Em face dos últimos acontecimentos que envolveram o movimento estudantil, e abarcam toda a sociedade civil, ao meu ver, fazem-se necessários esclarecimentos, interpretações, diálogos que dêem sentido ao nosso momento, afinal, tudo o que a grande mídia faz, mais do que discutir, é jogar uma cortina de fumaça sobre o assunto e caminhar para o esquecimento. Mania de historiador, confesso, odeio operar no vazio, achar que tudo é um grande acaso de confusões divisado por uma ordem plena – nada é assim tão claro. Pois, encaminhemos a questão: o que foram esses dois últimos atos públicos (A saber, e, caso não saiba, fico preocupado, o do Largo São Francisco no dia 11 e da Av. Paulista no dia 24, desse mês)? 


Esgotou-se o argumento da maconha, espero que sim, o bom senso habita até os mais obtusos de juízo: não dá mais para dizer que é uma luta pela liberdade de fumar no campus da minha digníssima universidade. Sim, tudo foi desencadeado pelos descaminhos da detenção, no dia 27/10, de três estudantes no estacionamento da minha faculdade que fumavam maconha, sim, a prisão de usuários pela ação policial representa uma grande falha de nossas políticas públicas e, por último, sim, a maconha tem um poder destrutivo muito menor do que o álcool e se se diz que é a “droga de entrada” seria mais que lícito pesquisar sobre pessoas que começaram pelo álcool, muitas vezes pulando a maconha, para entrar nas drogas “mais pesadas”, mas, enfim, reconheço, e o movimento reconhece, que a sociedade ainda não está madura para discutir o problema das drogas. Então, não, essa não é a nossa pauta.


O que dizer agora? Bom, a inércia é forte e muitos ainda optam por todos os artifícios para não se chegar a raiz da questão. O argumento que parece raiar no horizonte das ignorâncias é o da desconsideração. Já o era quando se dizia que os estudantes que ocuparam a reitoria na noite do dia primeiro estariam atentando contra o patrimônio público, crianças mimadas e sem respeito que quebravam esse lindo brinquedo comprado com os impostos de toda a sociedade civil. Agora, o desrespeito é com o tempo do cidadão pelo caos no trânsito provocado pelos atos, a quebra da santa normalidade, enfim, uma tremenda desconsideração para com o trabalhador que quer voltar pra casa, assistir a novela, comer seu pão de queijo e começar tudo de novo amanhã. Ironias à parte, sinto lhe dizer, mas, se concorda: 


Seu argumento é inválido.

É perigoso qualquer tipo de censura, de mesura em uma discussão embrionária, qualquer manifestação de diálogo deve ser estimulada depois daqueles anos de mordaça, mas eu preciso embarreirar aqueles que se metem demais na discussão rasa. A quebra da normalidade é o justo início da mudança. São meses, anos, décadas de desrespeito ao trabalhador, este leva quatro, cinco seis ou mais horas no transporte todos os dias! E contra isso não há nenhuma menção. Quando há, se cai naquele argumento do poder transformador do voto. Muito conveniente, a cada dois anos votamos e, se não deu certo, azar! O contentamento é assistir CQC e achar que cumprimos nosso papel por se indignar sentado no sofá. A outra alternativa é dizer que “está tudo errado!” ou o “são todos iguais!” e nem sequer votar de forma consciente. E que isso baste.


Nossa democracia é falha e não me venha falar em reforma política! O buraco é mais embaixo, precisamos de uma reforma em nossos corações, em nosso poder de indignação, de achar que nada disso é normal! As instituições não são santas, o Estado é laico, está a serviço de determinadas ideologias, de determinados grupos. Dizer que os estudantes estão contra a Lei, contra a normalidade, contra o respeito, chega a ser elogioso. Pergunte-se o que você acha certo e esmiúce o entendimento, não deixe que o façam por você! Isso tudo o que digo nem chega a ser uma opinião, é um grito, tudo o que me resta em meio ao desespero pela morte do bom senso e da solidariedade. Sou contra a caridade que afaga o ego e o conformismo que paralisa qualquer tentativa de ação; sou a favor da educação pública de qualidade, da livre expressão; sou a favor da mudança, da dignidade e do protesto.           E você?

(fotos tiradas com meu celular durante o ato na Av. Paulista na última quinta-feira, dia 24/11)

11 de novembro de 2011

Você não ficou sabendo

Caso não saibam, estamos em guerra, caros leitores: uma guerra pela informação. Sou estudante de História na USP e já devem, só com isso, ter me enquadrado como maconheiro e vândalo. Estou errado (e condenado!) mesmo antes de falar. Isso não é democracia, quer dizer, talvez seja para o governador... Depois do que aconteceu, que vem acontecendo, agora é hora de fazer barulho. Se te incomoda, azar! Pois é meu direito e mesmo se no início for bagunça, se nossas palavras indistintas se perderem no grito que agora se alivia, calado por tantos anos de descrédito do movimento estudantil, tudo bem, pois qualquer coisa é melhor do que aquele silêncio mórbido que perpassava não só movimento, mas toda a sociedade.

Você não ficou sabendo, mas o movimento estudantil é heterogêneo, somos um segmento da sociedade, não um todo coeso, e possuímos várias lideranças além de simpatizantes sem qualquer agremiação. Se você diz que somos todos maconheiros, sendo que a maconha não é nenhuma unanimidade (em qualquer parte da sociedade), se você diz que todos apoiamos e estivemos na ocupação (haviam lá pouco mais de 70 e ocuparam-na contra a decisão da assembléia, se exaltaram), bom, aí me dou ao direito de generalizar também...


Você não ficou sabendo, mas tendo de generalizar, eu te coloco do lado do governador, do reitor, de quem acionou a tropa de choque, de quem é conivente com a violência arbitrária daqueles homens sem identificação que atacaram um grupo de estudantes dormindo que, sim, desobedeceram uma ordem judicial, mas estavam desarmados e rendidos mesmo antes de todo aquele expediente tático. Eram a minoria e seriam vencidos em assembleia a ser realizada na quarta. Usavam máscaras? Depredaram o patrimônio? Se você defende mais os bens materiais, um patrimônio que não é mais seu (a Universidade está cada vez menos pública), do que a dignidade humana, assim não me deixa escolha...

Você não ficou sabendo, mas agora tenho de te odiar em segredo.  A cada vez que põe em descrédito o movimento inteiro por uma frase que ouviu na televisão, por uma charge que achou engraçada, por uma vulgarização de pessoas sérias, inteligentes, que já não tem paciência pra lidar com isso e precisam gritar porque ninguém se dispõe ao diálogo, enfim, a cada vez que acha que calado já estou errado, coloca a nossa amizade em risco. Reconheço, e muitos reconhecem (não posso falar por todos, mas o bom senso deve ser maioria) que a sociedade ainda não está madura para discutir a questão das drogas, mas o problema da segurança pública é óbvio demais para continuar uma incógnita. Você se sente seguro?


Você não ficou sabendo, mas nossa luta é pela abertura da Universidade Pública à sociedade, muito mais do que pela entrada da maconha ou saída da polícia. Que fique sabendo: lutei por você, lutamos todos, todos aqueles revoltados sem causa tinham você, eu e toda a sociedade, sob a qual deveria estar à serviço a faculdade, como pauta. Nosso reitor é peça estratégica de um processo de privatização (incluindo a criação de cursos pagos) que separa a USP rica, que dá lucro com pesquisa, da USP pobre, esta preocupada em coisas tão banais como... o conhecimento. Ele optou pelas catracas quando era diretor da Faculdade de Direito e, por ele (bem como todo o projeto que está por trás dele), a Universidade fica fechada. E uma Universidade quase deserta vai ser mesmo insegura - sem ninguém para ouvir os nosso gritos.

Você não ficou sabendo, e provavelmente permanecerá sem saber sendo este blog tão modesto e tua ignorância e vontade de permanecer no escuro tão vasta, que essa história tem muitos lados além do que a grande mídia mostra. Tem o meu e de outros com ainda mais propriedade sobre o assunto como esse esse esse esse... é só pesquisar.


Eis aqui o testemunho daquele que estava lá e viu e vê todos os dias essas coisas que você insiste em não saber. Aperte os olhos, pois a claridade incomoda depois de tanta escuridão; aprume os ouvidos para distinguir as vozes no zumbido crescente que corta o silêncio; prepara o espírito, abre o peito. Se a ocupação da reitoria o lastima, se a maconha ainda provoca confusão em seu juízo, desse último movimento, não tem como não deixar-se envolvido:

"O coração está ocupado." - agora você sabe.


(fotos tiradas com meu celular durante o ato do dia 10/11/11 no centro de são paulo, respectivamente concentração no largo, tomada das ruas e assembléia no salão nobre, muitas outras pela internet)

26 de outubro de 2011

"Tirem-me daqui!"

- soaria assim, o grito de socorro de meus caprichos.

Não me prendo por nada agora, estou livre e a sós comigo mesmo... ou talvez nem tanto. Oh! Faz tanto tempo, solidão, desde as épocas em que éramos somente eu e você... Trouxe alguém comigo desta vez, me perdoe o abuso, mas já não me bastariam os seus jogos, os meus delírios, pois de toda brincadeira e loucura brotou um amor que contra todas as possibilidades fez surgir quem se fizesse amada e me amasse em retorno.

Desempregado, desocupado, sem estágio, chefe e preocupações relevantes se não a de meus deveres acadêmicos e a administração das explosões criativas tão propícias no vazio, vivo como um rei, ainda que escravo de meus hábitos, na expectativa de mercês de um mundo que ojerizo, mas está aí para o meu agrado.

Este é o sonho boêmio! Viver das letras, como escritor e leitor, facetas minhas que sempre ressalto como as mais definidoras de meu caráter, apesar do sustento não vir propriamente da atividade e sim através dos benefícios da adolescência estendida, este berço resistente ao tempo que vela o sono dos vagabundos amáveis. Viver para ser - se tornou insuportável.

Ter uma mulher ao meu lado é lembrete contínuo de que sou um homem e o vazio não me cabe (ao menos que esteja aí para ser preenchido - mas dizer isso daria pano pra interpretações muito freudianas, então finja que esse parêntesis não aconteceu). Dizer que nada me prende, nada me impede, nada me obriga é displicentemente ocultar o artigo (o nada me prende, o nada me impede, o nada me obriga...).

- Quer saber? Eu vou embora daqui, preguiça, cansei dessa ladainha. Amanhã. Amanhã é um bom dia, hoje seria ótimo, mas amanhã está bom.

Acordar depois de tanta noite, mais do que fugir da fantasia boêmia para abraçar a fábula do espírito laborioso é lidar com o fardo de existir em toda a sua plenitude. Sem me afundar no Tédio, onde me salvo apenas na contemplação como corda salvadora para fora de mim mesmo; sem a distração e a fuga pelo trabalho, sendo aqui entendido em seu sentido estrito, o de puro esforço e esgotamento, intelectual ou físico. Pretendo, antes disso, crescer, estender-me sem fuga, ser e estar no mundo, marcá-lo de pegadas na humilde tarefa de restituir minha humanidade através do egoísmo solidário tão comum aos grandes escritores.

A solidão me impediu de ver: sou parte de algo maior - que alívio!

23 de outubro de 2011

Queime Depois de Ler (ou antes)

Quem aí acredita em qualquer coisa? Tem de ter coragem, força e nenhum senso do ridículo. Idolatrias e ideologias estão em crise - já tentamos de tudo, de tudo nós usamos e invalidamos. Mesmo a criatividade, ou o que sobrou dela, não nos dá subsídios para a esperança: jaz tão somente alimentando os fetiches tecnológicos. A inevitável sensação de que, como humanos, já nascemos fadados ao fracasso ou, indo mais além, já fracassados, nos impede de sonhar algo além de nossos sonhos de consumo.

Algo precisa ser feito! - soa o chamado ao combate para aqueles entrincheirados na indiferença até o momento. Vão então jovens, sobretudo jovens, manadas deles para o sacrifício, uma horda de ignorantes nadando contra a corrente de balas e murros. Acreditar, se indignar (acreditar mesmo!), tem um preço forte, que se saiba: a vida.

Imaginemos que recuperamos o nosso vigor criativo, que nossas fantasias não vem mais em embalagens, imaginem!  Desculpe a desilusão, mas um aviso antes de continuar: é tolice concluir (rebobine a fita se for o caso) que se voltarmos a sonhar veremos algum dia o mundo subitamente mudado. Não! É preciso morrer depois de uma vida de combate (real ou metafórico) para que as gerações vindouras colham a mudança no solo adubado com nossas ideias e nosso cadáveres.

Sim, palavras fortes e em até certo ponto minadas pela demagogia intrínseca ao discurso, mas que, ainda assim, devem ser ouvidas por pretensos revolucionários que se tornaram meros tumultuadores - quem diz que é parte da mudança está sendo ignorante. Em um mundo estagnado como o nosso, freio escondido pelo progressismo da tecnologia, os que quiserem fazer alguma coisa de positiva, legítima, imediata e de causa e efeito claros servirão de bucha de canhão para anunciar o levante. Ninguém em sã consciência iria querer algo assim!

Estamos todos conectados pelas relações de trabalho, interdependências econômicas, guerras... portanto dizer qualquer coisa sobre o sistema que nos acompanha de nosso nascimento, promove nossa ascensão e por fim dirigi-nos ao alívio da morte, se torna um risco - passamos por constante vigilância. Não, não falo de um Big Brother, mas de nós mesmos e de todo o moralismo de que é possível prover-se um cidadão idôneo. Como ser íntegro, honesto, coerente, ao criticar ao que lhes deu tudo? Deu-lhes abrigo, roupa, comida, uma boa criação (e por consequência as palavras que usaria como arma) e todo o pano de fundo para nossas fantasias, alegrias, histórias de amor e amizade...

Se está no mercado de trabalho, costuma se perguntar para onde está direcionada a sua força de trabalho? O que tem financiado por quarenta horas semanais? Qual a missão social da sua empresa? E, caso seja funcionário público, quais as ações de seu governo que alimenta com votos, impostos e até com seu trabalho? E mesmo se não estiver empregado, o dinheiro vem de algum lugar... e tão importante quanto: vai para outro. Parece-lhes absurda a hipótese de que não só o bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão mas também pequenas indulgências como a compra de um tênis caro ou relógio coloque um fuzil nas mãos de uma criança? Nunca saberemos. Santo melodrama! Eu sei... eu sei...

O ponto é que ter fé, seja em algo maior que coordene nossos princípios ou na própria humanidade (no futuro harmonioso dela, para ser mais preciso) se assemelha a andar sobre tábuas podres: é um exercício que não se sustenta de forma segura tamanhas as mentiras e contradições. Se há uma princípio que coordene a humanidade é o do caos e do desastre. Diante disso, o mais sensato parece ser não se mexer o quanto for possível, acreditar calado ou viver como um ermitão, apreciar ideias por sua beleza e nem sequer como um sonho belo, mas como filme mental que rodamos com o imaginário ocidental que nos é vendido desde os filmes da Disney, passando pelas sitcons americanas até chegar nos filmes que nos fazem nos sentir tão espertos só porque não tem final feliz.

Um palco esterilizado para nossos desejos.

Há, entretanto, uma saída, companheiros: a hipocrisia - não ligar para as bases podres nas quais se equilibram nossos pés e sim para as estrelas que ambicionamos alcançar com nossas ideias. A realidade material de nosso planos pouco importa e tão pouco a esperança (avante, pessimistas!). Nós devemos deixar de ser tão íntegros em nossos discursos, não dissimulados como os malfeitores, mas apenas hipócritas. Pois se dissermos apenas o que sentimos e vemos, veríamos e sentiríamos sempre as mesmas coisas: é preciso distorcer, criar palavras melhores do que nós mesmos para que os que vierem depois alcançarem-nas ao subir sob os nossos ombros cansados.

Se minhas palavras carecem de lógica, perdão, mas nunca ambicionei fazê-lo, quis apenas fazer sentido: assim se formou essa ideia insípida... porém, muito inspirada! Por fim, arremato: não acredito em Deus, talvez um pouco na sorte, sobra-me então a Hipocrisia.

12 de setembro de 2011

11 de Setembro


Querem nos enganar. Eu poderia ser mais brando, caminhar suavemente pelo tema e só então arrebatar, mas não seria preciso. A questão é aguda o suficiente para que eu vá direto ao ponto e faça o alerta, é muito importante que se preste atenção no que se ouve e se vê nesses dias... sempre é, mas nas datas marcadas o esforço deve ser redobrado.

Sou historiador, futuro historiador, portanto sensível a construção da memória coletiva, aliás, mais do que isso, me sensibilizo e sou munido do conhecimento para transformar tais estímulos em reflexão. Todos temos esse potencial dentro de nós, em maior ou menor grau. Afinal, a percepção histórica, na falta de termo melhor, é um dos elementos que integram o tal do cidadão crítico que a escola deveria se preocupar em formar.

É hora de por a nossa edução a prova: "Onde você estava há dez anos atrás?"

Circula no meio jornalístico a máxima de que nos lembramos exatamente do que fazíamos no fatídico dia. E, estimulados pelo furor dos especiais de televisão (o que ficou pelo menos dez vezes pior por ter caído justamente no domingo, dia onde reina o sensacionalismo na programação) ou talvez pela estupidez latente de alguns que explode em momentos estratégicos, as pessoas se forçam a lembrar... e lembram. Só que se lembram da forma como lembrariam de qualquer outra coisa que aconteceu há dez anos atrás: vagamente.

Peço que não se choquem com o que eu vou dizer, mas, sim, é uma lembrança comum - não foi traumático (para a maioria de nós). É compreensível que nos sensibilize pelo lado humano, mas pessoas morrem todos os dias de formas igualmente violentas e arbitrárias; é compreensível que nos sensibilize pelo patriotismo, pelo terror social, mas não somos estadunidenses. Como apêndice do mundo ocidental, o que se pretende é que cultuemos mais alguns santos estrangeiros, mártires de causas estranhas que se tornam nossas sem motivo...

A tragédia em si nos é estranha, o que tivemos acesso foi ao terror midiático, a descoberta da tragédia como produto e a institucionalização da paranoia coletiva - loucos são os que não se preocupam. E seguem as lembranças, depoimentos colhidos para contar uma história, ou melhor, para corroborar uma história. O discurso já está posto, após dez anos é possível ver a forma que vai tomando, um fato histórico em sua gênese - fascinante! E igualmente terrível, digno de um medo maior do que o que tentam nos provocar...

O que será feito disso?

Aí depende, vai de acordo com a medida de nossa ilusão. O episódio tem um alto poder de catarse coletiva e se deixarmos que ditem as regras de nossas lembranças, não vai demorar até que governem nossos sentimentos e vontades. Muita coisa pode ser feita, essa seria a minha resposta, coisa demais para pensarmos em apenas um dia por ano - quando nos permitem pensar - no assunto.

Só de comentar a questão na madrugada, oficialmente dia doze, já sou transgressor. E mesmo eu, ainda que encarnando o papel da razão, não posso ditar a nitidez com que se apresentam suas memórias, caros leitores. Cada qual lembra a sua maneira, ainda assim devo lembra-los de que a memória se transforma com o tempo. Mudam-se as cores: certos detalhes se firmam, outros se perdem, e (aqui nos interessa mais!) se determina um conteúdo emocional.

Lembro-me mais ou menos de onde me encontrava, acho que voltava para casa na perua escolar e poderia jurar que cheguei a tempo de ver ao vivo na televisão quando o segundo avião se chocou, mas os horários não batem... talvez seja a ânsia de ser testemunha. Mais complicado ainda de perceber o que acontecia (se afinal eu cheguei a tempo, se as aulas foram canceladas etc.) é precisar o que senti naquele momento há (não) exatos dez anos. Foi medo? Foi terror? Foi... incompreensão? Ou foi uma profunda indiferença? Dá para ir além e perguntar também: O que eu quero ter sentido? O que querem que eu tenha sentido?

Isso é lucidez.

Existe um preço para a lembrança programada no calendário. Dá a impressão que lembramos todos juntos e a colcha de retalhos de nossas memórias ganha a forma de um discurso detalhado. Viramos profetas, dizemos que sabíamos que tudo seria diferente a partir dali; viramos humanistas e descrevemos um terror profundo pela perda dos familiares daqueles homens inocentes; viramos civistas e honramos a bravura dos bombeiros e policiais...

Incertezas viram Verdades.

Nesse ponto, eu espero que não precise ressalvar que não possuo um coração de pedra ou total falta de tato - sei muito bem que a perda de qualquer vida humana é uma tragédia e que as mais de três mil vidas não tem como serem pesadas em uma balança dando-me palavras que as valham. O esforço aqui é só para instigar a reflexão de onde termina a memória individual e começa a coletiva e de como, por quem e porquê ela se constrói.

Não darei tais respostas, por não querer impor nada... e por não saber ao certo.

Termino com um pouco de mitologia. Os gregos, embora pareçam não ter se entrosado com o admirável mundo novo, já foram muito sábios. Dizia-se que quando a terrível criatura Medusa fora decapitada pelo valente Perseu, de seu sangue nasceu o cavalo alado Pégasu. E embora muitos só conheçam a Medusa por aquele filme mequetrefe e lembrem do Pégasu pelos cavaleiros do zodíaco, a metáfora é sobre como uma coisa ruim pode gerar uma boa.

Infelizmente, a modernidade parece funcionar as avessas (não a toa a Grécia esteja passando por maus bocados) e de uma coisa ruim só surjam coisas ainda piores - o maior exemplo talvez seja o Holocausto e a instauração da guerra perpétua no Oriente Médio com a criação do Estado de Israel. Mas sejamos otimistas, talvez a chave de tudo esteja pura e simplesmente em como lidamos com nossas memórias - um dos segredos do aprendizado.

Só assim os homens reaprenderão a aprender.

6 de setembro de 2011

Amar Demais

Estamos em face de um problema, caros leitores, coisa grave. O alerta vem de uma constatação inevitável que talvez só falte encontrar o seu formato em discurso, enfim, todos parecem perceber, é basicamente isso, mas ainda se faz necessária uma apreciação mais literária, pouco científica e ainda assim palpável e lógica, sobre o tema. Disso, sou capaz e até obrigado e me meter - faz parte de mim como escritor. Claro que, com uma introdução dessas pecando pelo excesso, devo ter mais confundido do que qualquer outra coisa.

Almas exageradas se excedem, é um desdobramento de sua intensidade, mas a questão aqui talvez não seja essa. Não somos todos exagerados, não podemos ser. Se formos todos, então a normalidade nos alcança no novo patamar e o que era antes exagero se torna rotina. Ainda assim, há a sensação de um esgotamento de amor, se fala demais dele, muito se ama nesses dias - mais do que o normal - e antes de duvidar da autenticidade dos discursos (dizer simplesmente que as pessoas não conhecem o amor e vulgarizaram a palavra) podemos (e iremos!) aqui fugir do senso comum e dar sequência a reflexão:

Por que as pessoas amam demais?

A neurose é grande, se repete, se propaga e se expande: o amor nunca foi tão acessível. Compramos nas bancas, livrarias, acessamos na rede, ouvimos no radio e observamos perplexos na televisão. É tudo muito fácil, amores épicos de vidas inteiras acontecem já desde cedo nas escolas, intrigas de dar inveja a qualquer novela mexicana... e tenho a vívida impressão de que a grande função das redes sociais é promover esses enredos, fundir autoria, atuação e audiência em uma mesma persona: o internauta, o criador do perfil online e alimentador de uma rede de amores infinita.

Talvez, ao constatar a pequena duração desses amores, o quanto se compactou para viajar por aí com tanta velocidade, devamos suspirar aliviados, dizer que o amor de verdade permanece vivo e este seria apenas um amor superficial. Mas não é tão simples, não deve ser (meu exagero é o de esnobar a simplicidade). As pessoas amam, mesmo que superficialmente, sofrem e superam, mesmo que de forma surpreendentemente rápida. Colocando dessa forma, poder-se-á inclusive vislumbrar alguma espécie de evolução, e não retrocesso, do homem na capacidade de sentir de forma mais competente, mais de acordo com a modernidade.

É amor, talvez um amor estranho, talvez um amor conveniente, mas amor... e em demasia.

Dentro dos exageros, há um que particularmente me intriga (motor, inclusive, de toda esta reflexão). Os amantes por vezes, parece-me, competem entre eles: criou-se a ideia de que, no casal, existe aquele que ama demais. Pois que sim (eu disse que era complicado!), não só existe temido exagero na quantidade de amor, como aquilo que era supostamente superficial também pode exceder na intensidade - se um ama mais do que o outro, danou-se.

Loucura, não? Já é um pleonasmo tão grande quanto subir pra cima essa ideia de amar demais (já que o sentimento versa justamente sobre o exagero), mas cismou-se tanto nisso que, mesmo no casal, existe aquele que errou na medida. Enlouqueceu-se o homem, nutriu-se de poesia achando que era ciência e cometeu o grande equívoco de achar que entendeu o amor; de tal forma se iludiu que achou que poderia medí-lo! Compará-lo!

É fútil esse tipo de exercício, primeiro porque ninguém sabe exatamente o que é amor, é tão certo que é exagerado quanto que é misterioso e múltiplo: pode ser uma infinidade de coisas - cada um chama o estranho que o habita de amor (mesmo essa definição é somente tão certa quanto se fizer sentida verdadeira ao leitor); e segundo porque não só é diverso o sentimento como também se opera de forma variada a sua manifestação - meu amor barulhento não desmerece aqueles que se fustigam calados.

Mas vamos lá, suponhamos que o amor se esclareça... e aí?

Veríamos o quanto e como amam os homens, números flutuando sobre as cabeças dos casais como num filme ruim de ficção científica. Aqui faço um palpite: qual não seria a surpresa se os dados e índices, na maioria das vezes, não fossem completamente idênticos nos dois amantes? Julgo, e aqui é somente minha opinião, se o casal é casal, e não somente duas pessoas que calharam de estar juntas, vão compartilhar de um mesmo sentimento: é o mesmo amor. No flerte, talvez exista amante e criatura amada, tanto para um, quanto para o outro: os desentendimentos são tão gritantes no início que chega a ser cômico e, para nossa felicidade, parte da magia da situação. Mas com o desenrolar da história, o rapaz deixa de amar a moça e supor que a moça o ama e pensa e sente consigo: nós nos amamos, essa é a verdade.

E um amor entre duas pessoas deixa de ser demais.

Vou concluir aqui, arriscar o palpite de que o problema é que as pessoas amam sozinhas, se preocupam a toa, tem medo de se conectar ao outro, embora sejam muito bem capazes de amar e exercitem esse amor, o mantém somente para si. Com esse egoísmo, não há relacionamento que se sustente. Lançam-se então manuais para as mulheres de como "segurar o seu homem" e guias de conquista para os homens que, desistindo de manter a que tem, já se preocupam em como conseguir a próxima. Podia-se muito bem abrir mão dessa industria de auto-ajuda de histórias de sucesso, pura falácia, isso sim que é demais para mim!

Quando as pessoas vão aprender que o único e grande Segredo é amar a dois?

2 de setembro de 2011

Os Outros

Nos últimos dias, tenho feito a reflexão sobre o bem e o mal, os dois principais axiomas que governam o juízo dos homens (na alma de alguns, talvez os únicos). Na era dos relativismos, é pertinente, ou assim me parece (observação presente pois, como o relativismo, o politicamente correto também assombra a modernidade e devo temer emitir opinião), resgatar disciplina na compreensão e ter um chão antes e me preocupar com o horizonte das questões.

Dado exercício contou com questionamentos muito próprios, reflexões que me acompanham desde os primórdios de minha educação de moral franciscana. Tal abordagem me pareceu válida ao ler o livro de Camus, A peste, e também pelo pouco que pude extrair de Hegel em sua Razão da História, pois consegui me despir do receio de vulgarizar os pensamentos pela religião - é possível ser inteligente usando de elementos da filosofia cristã!

Por mais que Nietzsche a tenha (e, em parte, eu também) como "metafísica para pobres" e muito do cristianismo se legitimar mais pelo tempo do que pela qualidade e pertinência de sua mensagem, devo tributo a algo que por tantas eras habitou e ainda habita o coração da humanidade. Importante lembrar que sou ateu, é claro.

Mas saindo da teoria, do que é pesado e de difícil digestão, voltemos ao que flui em nossa interioridade, dúvidas que me ocorreram e que provavelmente chegaram a tantos outros ao se depararem com os ensinamentos da Bíblia. Sabem? É aquela coisa, no que a Igreja não nos pega pela fé, ela nos arrebata pela culpa...

Desde pequeno me pergunto se afinal sou uma boa pessoa, é inevitável. A ideia de céu e inferno nos impõe essa reflexão, se tudo o que há de mais sublime (e terrível) está no outro lado, devemos nos informar sobre em que pé anda o nosso caso lá em cima. A crença em Deus acabou se esvaindo, mas a sensação de culpa e intranquilidade ficou. Em qualquer ideia de auto-apreciação, e em um narcisista isso é fundamental, tenho de voltar:

- Sou uma boa pessoa?

Completamente envolvido pelos relativismos deste estranho estágio da modernidade que habitamos, e confundindo com lucidez, eu me perdi na questão, julguei que talvez a alma humana fosse complicada demais para se chegar a uma resposta. E realmente é, o problema é que temos de pensar o impensável as vezes, é preciso abstrair, metaforizar, reduzir, simplificar... não podemos deixar a vida passar na escolha da palavra seguinte.

Uma hora, temos de arriscar.

Mais do que isso, eu não podia deixar que angústias particulares tomassem conta da minha compreensão de mundo, talvez a alma humana, como um todo, não seja indecifrável, mas a minha seja, ou por minha perspectiva prejudicada (afinal, só me enxergo através do espelho) ou por meu bom espírito ser mesmo endemoniado. O que é em mim misterioso, nos outros consigo discernir: vejo pessoas boas e más, vejo predominância de ora virtude, ora vício; em cada um a melodia da alma toca em um tom bastante claro e definidor.

Li, outro dia, um texto um pouco fútil sobre se colocar no lugar dos outros. Bom, é o que resta ao egoísta, imaginar como o outro se sente, pois a empatia não lhe fornece o subsidio para boa ação. Tento aqui seguir o conselho sem medo de parecer óbvio e superficial, tento aqui reconhecer que existam pessoas de coração bom e não danar a todos por minha dúvida e melancolia em relação ao mundo. Livro-os de minhas angústias em meu juízo.

Talvez isso me torne uma pessoa boa, quem sabe? 

6 de agosto de 2011

Procurando Provas

Na sala de aula da faculdade, eis que me deparo com um termo novo: o paradigma indiciário que, como é comum no que circula no mundo acadêmico, envolve-se nessa sonoridade específica, é pomposo, assusta, daquelas coisas que se incluída em uma sentença já desequilibra a discussão. Desvendar o que afinal significaria são outros quinhentos, ninguém ganha pontos para saber o que está saindo da própria boca, o que importa é o jogo de impressões, o impacto causado. Entretanto, como acadêmico e curioso (muito mais em virtude da segunda qualidade) tive de esboçar um entendimento para o bendito termo, do contrário, atingir-me-ia como um pedregulho, pesada e grosseiramente, mesmo emanado pelas civilizadas vozes dos professores doutores ou recitada na calma de uma leitura silenciosa.

A ignorância é insuportável.

O paradigma indiciário, pelo o que eu entendi, é um jeito bonito de nomear a nossa mania (ou neurose, a depender dos casos) de procurar provas, indícios, para reconstruir eventos passados. O paradigma estaria presente no preceito básico das narrativas policiais, onde o crime é elucidado pelas evidências, e seria transposto para entendimento de todos os eventos passados, sendo a aplicação máxima a História. Seria o  presente então uma enorme cena do crime, cabendo ao hábil investigador histórico descontaminar e descortinar as marcas deixadas e trabalhar a reconstrução dos eventos para por fim contar a todos, reunidos ocasionalmente em uma mesma sala, criminosos, vítimas e omissos, quem são os culpados por nossa realidade.

O que é incrível é como essa concepção envolve a nossa compreensão de mundo até no âmbito mais particular. Não buscamos nós em nossas próprias memórias aquilo que nos define e explica o que sentimos? Pequenas provas do que fomos, somos e seremos, como se a resposta estivesse ali, enterrada nas profundezas da alma, em lembranças fragmentadas e partes dormentes de nossa personalidade cabendo a nós, ou nossos gurus (espirituais ou materiais na forma de um conveniente livro de auto-ajuda) e melhores amigos perscrutar a verdade insondável de nossos corações.

Obviamente, tal ambição não se concretiza, muito provavelmente por envolver daqueles desejos insaciáveis que nos torna demasiadamente humanos, sempre buscando mais. A auto-descoberta é uma grande enganação, o que sabemos sobre nós mesmos, o que devemos e podemos saber, já está a mostra.. quem tem algo oculto em si de si mesmo é esquizofrênico. As pistas que encontrarmos só nos dirão o óbvio: somos o que somos e estamos onde estamos pelas escolhas que fizemos.

E veja que nossas decisões, mesmo as mais impetuosas, costumam ser feitas em momentos lúcidos e em plena concordância com nossas vontades. A loucura começa ao querermos editar nossas próprias memórias. Na pressa de querer tudo explicado, ou mesmo tendo se perdido da vontade originária do ato, é rotineiro plantar falsas evidências que deixem o nosso todo coeso. Como uma autobiografia escrita, maliciosa por natureza, a nossa auto-imagem pode incorrer em tal erro... assim como fiz, assim como agora confesso a vocês.

Na primeira vez em que me encontrei pessoalmente com minha atual namorada depois de meses de amizade virtual, teci um punhado de observações, afinal era um momento marcante, que depois foram ganhando proporções incontroláveis na idealização de um amor dormente. Hoje, depois de quase dez meses, já é um caso de amor concreto, o relacionamento mais significativo que possuo, mas na época eramos da bem da verdade apenas duas pessoas que se conheciam gradativamente, mesmo após meses de conversa. É demasiado simplista dizer que algo foi despertado naquele momento, é complicado, e até inútil, descobrir o que realmente aconteceu, como se houvesse uma explicação que desse conta de tudo. Veja você que o que era para ser uma declaração de amor se tornou um enfadonho tratado teórico!

Lembro-me de que a primeira impressão que tive dela foi o estranhamento: ela era diferente das fotografias e do que pude ou poderia imaginar - foi o que consegui a princípio, ater-me na singela constatação de que registros quaisquer não dariam conta de descrever uma pessoa, ainda mais alguém tão especial. A opacidade das fotografias não dava conta das nuances em seu rosto, a suavidade dos traços, as discretas sardas, do contraste entre corpo magro e o rosto levemente arredondado, a risada, a voz e os pequenos detalhes da vestimenta, do andar.. e todas as coisas que não consigo descrever, pois mesmo a memória é um registro. Impressionei-me, mas não me apaixonei, ao menos não como agora. Foi só o começo...

É covardia com minhas pobres memórias procurar a latência de todo o amor que sinto agora, pareceriam-me muito mais pobres e até enganosas ante a toda expectativa de explicar o inexplicável. Mais justo do que procurar indícios, mais sensato do que justificar apenas um momento (o de agora) é saborear cada uma das sensações de que nossa história provém. No princípio, a aventura: mesmo que não tenha sido amor logo de cara (ou que não estivesse "nem aí" para mim, como mais tarde me confessou) conhecê-la foi a minha odisséia.

Não devo chorar por memórias que não foram e não são mágicas, pois, melhor ainda, são reais! Em nossa história, nada tenho que inventar, preencher lacunas é bobagem. Se não houve um grande momento que desse sentido a tudo, a ocorrência de um grande amor cometido e suas pistas, tomo-a como cúmplice, pois juntos cometemos não um, mas diversos e recorrentes crimes contra a razão em nossa história de amor. Na falta de um momento, sentimento - um único amor investigado - houveram vários; na falta da explicação, a sensação;

e nada mais falta.

Em termos, desvendar o passado é tão fútil quanto prever o futuro, trabalhemos com o presente, pois este, como o nome sugere, é que nos é dado. Transformemos as previsões em planos, a incerteza não é razão para deixar de sonhar, e tomemos recordações pesadas e imóveis como leves lembranças, usemos a ilha de edição da memória ao nosso favor na confecção de pequenos curtas a nos distrair quando nada parece acontecer na imensa aventura, esta vivida e estrelada no presente, de viver e de amar.

6 de junho de 2011

Preconceito

Não é muito usual que eu trate de questões mundanas, comuns, e nada é mais corriqueiro que o preconceito, infelizmente. No entanto, uma explanação sobre o tema pareceu-me indispensável. Já me pronunciei algumas vezes sobre as falhas na comunicação entre homens e mulheres, mas a questão aqui é um pouco mais ampla: trata da visão ultrapassada que é sustentada por uma parte considerável da população (composta por homens e mulheres).

É um fenômeno bastante curioso a absorção de valores do opressor pelos oprimidos, engraçado mesmo, ridículo... se não fosse trágico. Como historiador, estou acostumado a fazer uma abordagem mais "científica" sobre o assunto, mas esse espaço é livre de formato e exigência, então me reservo o direito de me indignar e achar isso estranho. Talvez seja o primeiro passo para a mudança, enfim, chega de distração...

Mas, voltando, vejamos o quão é estranho como tomamos esse veneno de forma indiscriminada, incorporamos um discurso que nos divide e enfraquece trajado por pessoas com preguiça de pensar. Conveniente, nada vem por acaso, para alguém isso é muito conveniente. Você é esse alguém? Eu duvido muito, o comum que sai por aí repetindo dizeres alheios não costuma ganhar nada, só perde se privando de uma visão mais ampla.

O comum assiste Pânico na Tv e acha tudo muito engraçado, nem desconfia que o que se vende ali não são só os produtos abertamente anunciados, mas toda uma visão de mundo emanada por uma sociedade machista cheia de contradições. Não vejo problemas em assistir e dar umas boas risadas, mas é necessário refletir um pouco, pois principalmente o que parece estritamente simples e inocente pode muito bem ser o mais malicioso.

O CQC também não escapa a essa regra, o que por um lado parece uma fuga, é na verdade uma reafirmação do mesmo. A que ponto chegamos? O gigantesco plural que seria o Brasil, na verdade, se resume a dois programas televisivos! Se o Pânico na Tv é o retrógrado e óbvio, o CQC é a preguiça de mudar. Como se bastassem uma meia-duzia de protestos inóquos e promessas vazias para que o Brasil melhore... sem falar na hipocrisia.

Alguns talvez tenham lembrado de Rafinha Bastos.

Para quem não está situado, o cidadão mencionado, repórter-estrela do "programa investigativo" A Liga, além de piadista assistente de mesa no CQC, se envolveu em polêmica recentemente por fazer uma piada sobre estupro. Acho que não precisaria dizer mais nada do absurdo da situação... mas falarei mesmo assim, aí vai:

O preconceito, ao meu ver, se trata muito mais o que não se diz. A conduta do humorista em questão foi completamente inadequada, ofensiva, mas de nenhuma forma preconceituosa. Fazer uma piada de taboos, e uma violência tão sinistra quanto o estupro é certamente um dos maiores, torna ele, na verdade, superior a sua pífia obra como repórter crítico.

Ridicularizando o que deveria ser sério nos faz justamente nos perguntar o que é que realmente importa, o que deve ser preservado e protegido quando o próximo dilúvio (ou revolução) vier e nos lavar das nossas visões arcaicas e preconceituosas. E sim, isso é nosso, é nossa responsabilidade, aqueles programas não estão ali por acaso... e um certo deputado federal não subiu ao poder sozinho. Ou talvez seja só uma piada de mal gosto.

Pergunte-se agora o que é que te ofende, se precisa ser um tapa na cara como uma piada de estupro ou se já não feririam as agulhadas de machismo do Pânico na Tv. Ao meu ver, o que é aberto e escrachado é que deveria passar desapercebido, há uma certa inocência em Rafinha Bastos, coisa de criança que diz exatamente o que pensa. E o que não se diz? E quanto a maneira que a mulher é apresentada nos programas dominicais?

Sou homem, caucasiano, heterossexual e de criação católica, se eu tivesse escolhido Direito ao invés de História estaria em franquíssima vantagem na corrida pela dignidade e respeito em relação a boa parte da população. Aí que mora o absurdo, uma lógica afunilante que te ceifa e determina as oportunidades na medida em que você não segue o prescrito, em não faz o que esperam de você, em não se é o que esperam do você.

O maior protesto é trair as expectativas sem receio, a hesitação é vitória do opressor. Adquiramos um pouco da irreverência do violador do bom senso! Assim como ele soltou ao vento o que obviamente encontraria resistência, também tenhamos nós esse traque. No final das contas, até se poderia dizer que ele estava errado, mas o que é um pau torno no meio de uma selva de ignorância? Abre o olho, minha gente! Tem muita coisa pior.

8 de dezembro de 2010

Misery Loves Company

Descobriram no meu estágio que tenho um inglês razoável, nunca fiz grande alarde por ser essa uma coisa cada vez mais frequente e básica nas pessoas jovens e eu, como sabem, tendo essa pequena mania de desprezar tudo aquilo que é comum. Enfim, meus colegas de trabalho não acharam tão mundano, o que me fez pensar...

Que eu faça então algum uso desta habilidade redescoberta!

Nesse sentido, ocorreu-me uma expressão em inglês para intitular a postagem de hoje (Misery Loves Company) que, em uma tradução livre, significaria algo como "tristeza adora companhia" - pensando naquele que não suporta a felicidade alheia e se mete a atrapalhar. A indagação então caminharia no sentido de ver o porquê disso...

Dá para pensar nesse sujeito de duas formas: como despeitado que se ressente, tem inveja ou qualquer outro sentimento conflitante com a pessoa em estado de júbilo; ou como sadomasoquista que goza do próprio sofrimento e também do do outro. De qualquer forma, falamos aqui de uma presença tóxica e perigosa que propaga a sua dor.

E a pertinência, cadê? A expressão me serve bem, não estou muito longe disso, tanto de um perfil quando do outro. Mas, olhe, não vá pensando que eu esteja admitindo que sou má pessoa! Não é o caso... somente reconheço nem sempre ter bons pensamentos.

Até me ocorre vez ou outra a dúvida do porquê de tantas atribuições excessivamente positivas a minha pessoa sendo eu uma alma tão pesada e negativa: é justamente a timidez. Preservo e crio muitas amizades pelo simples fato de me manter calado.

Não é segredo por aqui que os meus últimos anos foram bastante insatisfatórios... sei bem que para muita gente foi pior e que tive lá meus momentos bons, mas se a felicidade se resumir a essas pequenas ilhas ensolaradas na imensidão de um oceano negro, eu vou achar isso tudo uma grande merda digna de inesgotáveis reclamações!

E ninguém quer saber de quem lamenta demais, por mais que eu goste do alívio de por a angústia em palavras, reservo os maiores desabafos para a escrita - aqui só lê quem estiver interessado não tendo eu de aturar a distação ou o interesse falso.

Talvez não goste tanto do sofrimento, só naquela medida normal que a psicologia vai atribuir à qualquer um, mas sim de lidar com ela. É praticamente meu instrumento de trabalho! E de tanto usá-la torno-me por acidente a própria tristeza - ainda que, como tristeza, não deixo eu de ser eu e abominar e até temer a solidão.

Entende aonde quero chegar?

Busco os meus pares como qualquer um, desejo a quem me mostrar os meios de se trabalhar com o que possuo. Não me fale em pensamento positivo! A tragédia funciona para mim... ou melhor, é o que vai ter de funcionar (eventualmente)...

O problema é que cada um tem aquilo que é seu e que funciona e ignorando ou até desprezando a diferença na minha ansiedade de buscar a identificação no outro (ou mesmo a distinção, me enaltecendo pela ridicularização alheia), acabo atopelando a individualidade... ou assim faria se dissesse tudo o que se passa em minha cabeça.

Sério, por vezes passo vários minutos pensando em coisas que desestabilizariam determinado alvo: "o que o faria chorar?" - "o que o deixaria puto comigo?" -  não sou fácil. E geralmente são pessoas que eu gosto, vem de graça essa vontade de "atrapalhar".

Só posso concluir que são inúmeros os mecanismos de auto-sabotagem dos quais disponho. Puxa, até fazem mais sentido aqueles filmes em que o herói sempre encontra o botão de auto-destruição na base do inimigo! - sempre achei aquilo ridículo, mas agora vejo que é inevitável crescer sem se expor aos males dos outros... e de nós mesmo.

4 de agosto de 2010

Freud Explica

Ando meio chateado esses dias. O momento é de realização, mas algo vem me barrando emocionalmente e, não obtendo êxito nas prospecções iniciais pela chave clássica "o que há de errado comigo?", resolvo que é hora de arriscar um palpite.

Você que talvez não conheça como funcionam meus pensamentos que fique sabendo que essa é uma tática comum, ainda mais quando escrevo. Eu não aceito incógnitas e respondo mesmo sem saber a resposta, pois, de qualquer forma, não distinguo em autênticidade uma solução descoberta da inventada. Explicado isso, vamos ao pensamento...

Por algum motivo, e aqui fico devendo qual, pesquei uma memória da adolescência. Ah, lembrei! No caso, meus amigos comentava dos hits dos fins dos 90 e início dos anos 2000 que tinham coreografia e tudo mais, se tornando ainda mais pegajosos na memória. Faziam a alegria das festinhas teens das quais lembrei no início do parágrafo.

E é engraçado como a memória funciona, depois de um tempo as lembranças parecem que desbotam e nosso trabalho de restauração passa longe da reprodução fiel. Os grandes acontecimentos, que podem nem ter sido tão grandes assim, recebem uma segunda mão de cores vivas e os menos agradáveis são tatuados a ferro quente.

Já quem não tem memória fotográfica só guarda aquilo que é relevante, eu então que sou tão dramático só guardo traumas e louros de campanhas vitóriosas. A qualidade de escritor ainda dá às memórias uma espécie de narrativa que as alteram ainda mais.

Lembrando das festinhas de aniversário do início da minha adolescência, quando as interações entre meninas e meninos vão sendo redefinidas, foco as garotas e suas coreografias. Tão compenetradas em fazerem os tais passos levam no rosto uma expressão que não diz nada. Meninas vazias que na falta de emoção melhor só demonstram o desprezo.

Viram só? Eu tento puxá-las neutras, mas as imagens vem manchadas de uma mágoa da qual às vezes me esqueço. Pré-adolescentes vão ter mesmo cara de paisagem, esse ódio vem sem motivo, são fundamentalmente crianças ainda. Mas o desprezo era real, isso eu posso dizer, e é daí que vem toda essa mágoa.

Naturalmente não vinham com ele estampado na cara e tão pouco o fariam só por minha causa, por esse raciocínio eu culpo o egocentrismo. Ignoravam-me, alguns garotos acabam deixados de lado pela seleção natural dessa selva que é a vida escolar. Hoje eu já relevo tudo intelectualmente, mas a mágoa fica, é mancha que não sai!

E com tudo isso eu pude enfim inventar uma razão para meu mal estar, motivo de todo esse devaneio: percebi que poucas coisas me afetam mais que o desprezo de uma bela mulher. Deixarei-os curiosos a respeito de qual acontecimento do presente engatilhou isso.

Não sei se culpo a minha adolescência ou vou mais longe na infância e escavo lembranças até encontrar alguma que corrobore essa versão, Freud talvez o fizesse...

Importante lembrar que meu conhecimento sobre o pai da psicanálise não escapa em muito do senso comum, sei uma ou outra coisa a mais que a maioria, mas não vou além disso. O que me vem a cabeça é aquela ideia de que as filhas invejam o pênis do pai, porque lhes falta, e os filhos ambicionam possuir suas mães por completo...

Acho que até os filhos andam invejando o pênis do pai esses dias... e não, não sou daqueles moralistas preocupados com o aumento da homossexualidade assumida e sua ineivitável representação nos meios de comunicação. Mas, sim, ainda posso estar sendo chovinista. O que me preocupa é a indefinição do homem como homem.

Antes era claro: trabalhar, sustentar uma familia e ser firme em seus valores. Hoje, e já há muito tempo, o sustento da familia é uma obrigação compartilhada entre homem e mulher e a volatilidade é indispensável para viver em uma sociedade onde o bom e o mal ainda existem (talvez seja esse o problema), mas trocam constantemente de definição.

Uma amiga blogueira foi ainda mais longe e chamou os novos machos de homens-fada preocupados demais com seus sentimentos, totalmente perdidos de seu papel como homens... afinal, eu diria, ele não existe mais. Pense só nessas fadinhas que nós criamos, vamos, tomemos um segundo:

Jovens praticamente andrógenos e afeminados, a crescente ampliação do papel da amizade para o desenvolvimento da sexualidade. Para agradar, o homem aprende desde cedo a se desfazer de seu pênis. Ok, como chamar esses emos promíscuos de menos machos? Só pelo visual? Não, não é isso. A questão é outra, por favor.

Talvez ajude se você pensar que pênis em inglês pode ser cock, que significa galo. Já ouviu falar de mais de um galo em um galinheiro? Essa coisa de todo mundo pegar todo mundo, mesmo que o sujeito fique com tantas garotas em uma noite, também deixa ele como apenas mais um. Desde cedo, se aprende que não é produtivo se impor.

E eu sei (ok, talvez não saiba, mas tenho um palpite forte) que esses jovens compreensivos que vivem de pegar suas amiguinhas sentem inveja do pênis de seus pais ou mesmo avós: um pênis que não pedia permissão para levantar e ir atrás do que quer, que não se adequa, que abre caminho, que bate na mesa quando é preciso!

Justo dizer que o pênis genuino morreu, mas não sem deixar todo mundo fodido.

Claro que não sou retrógrado ou desejo voltar no tempo, muita barbaridade aconteceu na cultura do pênis. Mas fica a dúvida de como lidar com essas garotas que foram versadas desde cedo no desprezo, pois sabem que também a nós falta aquilo que ambicionam. A solução talvez esteja em lembrar que tudo isso não passa de uma metáfora.

E ainda somos nós que completamos o vazio delas.

15 de julho de 2010

Voando Baixo

Ultimamente venho contestando os elementos que compõe meu estilo, um exercício válido para todo escritor. Não é algo exclusivo de quem escreve, dito que a revisão aqui envolve mais do que mera estética, mas sim a constituição e forma do próprio pensamento - se trata do clássico momento de sentar para pensar na vida.

Se eu mudo a forma de escrever, mudo a forma de lidar com determinados sentimentos e até os redefino. Uma pessoa complexa, ou que se faz de complexa, tende a se trabalhar por esses caminhos. Nem discuto a validez do método que pode ser tão fútil quanto a leitura de um livro de auto-ajuda, mas é assim que fazemos.

Bem, duas questões vieram a tona nessa reflexão: o vocabulário exagerado e o uso constante de metáforas. A questão do vocabulário eu venho tratando, já tenho um controle maior das palavras-enfeite que acabam distraindo ao invés de ajudar na compreensão do texto. Em um conto cheguei a escrever "... esse vil teatro exaure as nossas forças..."

Melhorei nisso, mas o uso de metáforas permanece o mesmo. Pode até ser interessante (e eu me divirto as criando, confesso) entretando, confunde. Parece que eu trago o texto para uma simbologia que só faz sentido para mim. E, sendo escritor, carrego essa alienação para a vida - sou incapaz de discutir, pois não uso conceitos comuns no significado.

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Hoje, andando pelo shopping, estava pensando sobre a minha distância das coisas, de como minha suposta elevação - olha o narcisismo! - se torna "negativa" às vezes. E, antes mesmo de bolar uma resposta concreta, construí uma metáfora.

Eu voo baixo.

Flutuo horizontalmente a poucos centímetros do chão. Ainda que minha parte mais baixa do corpo esteja mais longe do solo do que qualquer um preso à terra, a minha parte mais alta (por estar eu na horizontal) perde para qualquer um de altura mediana na vertical.

Com essa metáfora, o fato de eu olhar com um desprezo feroz para uma pessoa e, ao mesmo tempo, nutrir profunda admiração e humildade por outra parte dela faz algum sentido... é, tudo seria resolvido ao admitir que as pessoas não podem ser entendidas apenas com um olhar. Mas não foi esse o caminho escolhido. Por algum motivo, complico.

Acho que é porque talvez eu realmente voe baixo sob vários aspectos: por meu senso de realidade estar comprometido a ponto de eu acreditar voar; ou mesmo pelo voar como figura clássica do sonho, não alço grandes "voos" por medo da "queda". Vê-se que o significado da metáfora só vem a crescer e crescer, é uma criação incômoda.

Matéaforas são assim...

Mencionei uma metamorfose no texto anterior e um trocadilho pareceu inevitável. Repensar o método, maneirar nas metáforas, colocar os pés no chão para variar: irônico pensar que essa metamorfose, ao contrário das borboletas, trate de encolher as minhas asas.

... só não mais irônico do que falar do fim das metáforas pela menção de outra.

9 de julho de 2010

Alegria Gótica

Existe uma diferença sutil entre o ser e o estar, não é a toa que a língua inglesa confunda os dois no bem conhecido verbo to be, presença obritatória na doutrinação do "idioma do mundo" em escolas e cursos apostilados que parecem brotar do chão.

Primeiramente, se diria que a diferença de ambos se encontra na duração. O que é permanece, e o que está transita, como se existisse um ser eterno... Mas, independente das brincadeiras e sofismas semânticos, existe, de fato, uma definição convencionada. À ponto de sobreviverem conceitos distintos sob a mesma palavra  na língua inglesa.

O nosso ser comporta o que pode, ou melhor, o que se espera que possa, ser mudado; e o nosso estado o que é aceito mais facilmente como transitório. Nossas virtudes e vícios mostram aquilo que somos e nossas emoções e conhecimentos como estamos.

Ao menos, é o que vejo da percepção alheia...

Mesmo definindo, e, se não está perceptível, eu esclareço, é algo muito confuso para mim. Conforme você passa a desacreditar na essência, o ser fica mais inconcebível... perdi a fé. Sinto-me localizado em meio a uma série de acasos movidos por fatos transitórios: não sou nada e acredito que ninguém também seja alguma coisa.

A identidade é uma piada, seja no âmbito particular ou na história de um povo (meu desabafo é abritrário como todos os outros, mas essa associação eu faço em respeito a todos os paulistas facistas que tiraram o feriado para falar bobagem).

Minha confusão só aumenta quando penso que o que é considerado como estado pela convenção, em mim, traz mais seriedade do que aquilo que é associado ao ser. Parentes e amigos, ao me descreverem, tecem um relato das mais puras desverdades e só acertam sobre fatos que eu os alertei sobre... é, adoro falar sobre mim mesmo.

Também pudera, raramente sou fiel à uma ideia, nunca sou - o meu ser é composto por estados. E aí que vem a calhar a neurose, a rotina, os fantasmas... para ser alguém eu preciso estar preso. A constante necessidade de mudança me faz conceber a existência como uma prisão, não-natural, por isso me confundo... ou talvez eu seja um idiota.

Deve ser isso! Afinal, não hesitei, não disse "estou sendo um idiota" disse que era um e fim de história. As coisas só se complicam quando se decide que assim seja.

Mas, afinal, o que sou? Eu sou eu, quem mais? Um escritor bem humorado, apaixonado e triste, simples assim. Nego que os dois últimos sejam vistos como estados, ou mesmo que uma atividade, tal como escrever, possa ser vista como intangível à eternidade suposta no ser. Tentando descomplicar, já nego de pronto sem grandes justificativas.

Se eu deixar de escrever, se eu não me apaixonar na sequência de cada desilusão formando novas musas a cada passo, se eu for feliz, se eu deixar de me contentar com a alegria gótica na ironia do sofrimento, seria ainda eu?

Não.

3 de julho de 2010

Narcisismo

O possuo em demasia. Só essa confissão já valeria como postagem do dia, pois que nos dias de hoje é complicado reconhecer as próprias falhas. Pense só, caro leitor, provavelmente já deve ter ido à alguma entrevista de emprego e sido questionado sobre suas falhas. Quantos já não incorreram à velha tática de dizer "perfeccionismo"?

E isso lá é falha? É, mas só se chegar à neurose ou à transtornos obsessivo-compulsivos, o que seria engraçado de se devolver ao entrevistado espertão para ver como ele reagiria. Mais engraçado ainda se o candidato de fato possuir TOC e constranger o entrevistador.

Mas confesso que (sim, hoje os ganharei por minhas confissões), apesar de tentar sensibilizá-los com esse exemplo, não fui confrontado diretamente desta forma. Os entrevistadores devem ter ficado espertos para isso. Oportunidade para pensar a questão, não é mesmo? A resposta padrão já não é necessária: qual é o seu defeito, realmente?

Não importa, não me digam! Meu defeito é o narcisismo e eu não ligo para nada do que vocês tem a me dizer. Quem não me conhece pode pensar que eu estou brincando... mas eu realmente falo sério, ainda mais quando eu estou escrevendo, fico bem centrado.

Então... eu me respondo: além do narcisismo, já pensei em dizer que eu sou preguiçoso em uma dessas entrevistas (se eu fosse perguntado, obviamente, também não quero sabotar minhas chances, só queria ver aonde isso ia dar). Bom, me entendam, já fui em um sem número de entrevistas e nunca dá em nada, sobrou aloprar.

Da preguiça, nem tenho muito o que falar (por isso o título é narcisismo). Diria ao entrevistador que preciso estar empolgado para me envolver em projetos, que aquela oportunidade oferecida em especial despertaria isso em mim revelando um potencial que... é, eu ia mentir no final das contas também. Tanto quanto os perfeccionistas.

Vê? Isso sim é um defeito digno de ser confessado! O narcisista se ama tanto que é capaz de racionalizar os próprios defeitos de modo a entregá-los como qualidades e, até certo ponto, acreditar no que diz! E se amar ainda mais quando a mentira é mais elaborada!

E todo blogueiro não seria também?

Expor os pensamentos de uma forma tão visceral não deve ser mero desabafo, ou é? Não sei dizer, ainda mais generalizando dessa forma. Mas... já visitei blogs muito diferentes e a maioria dos pretensos escritores não possui qualquer controle sobre o que diz.

Quase como se eles entrassem em um espécie de transe e quando percebessem... bum! O texto está lá, publicado. Ou, sem ser tão mistificador de uma realidade cinzenta, escrevem para curar o tédio. Com mais tédio do que ideias, e sem habilidades para temperar o que está cru, fariam cortes do pensamento com uma faca quase cega.

O gosto do produto final é terrível, mas esses infelizes já queimaram o paladar com tanta televisão que nem percebem. Então, sim, desabafo, pode ser. Mas é fácil confundir com narcisismo. E, veja bem, não estou dizendo que uma forma é melhor que a outra.

As duas são estúpidas: ou vocês escreve porque acha que seus pensamentos interessam a todo mundo, ou por tédio. Eu faço pelos dois; Adendo: é possível "cozinhar" um desabafo propriamente, mas sabem como é... minha visão enxerga mais o negativo.

Ok.. ok... agora eu me perdi. Ah! Sobre confundir desabafo com narcisismo, não sei se vocês repararam, mas muitos blogs funcionam ao estilo fotolog. A pessoa coloca uma foto de si e escreve alguma coisa. Sempre assim, uma foto diferente para cada postagem.

Essa é a postagem de número 278, para vocês terem uma ideia, imaginem seu eu tivesse uma foto minha para cada uma dessas? Ia ser, no mínimo, estranho. No meu HD, eu tenho cerca de vinte ou trinta auto-fotos e já acho muito.

Mas vai saber... essa era digital banalizou a fotografia, minha vida está dividida entre um e outro extremo (quando criança, cheguei a usar daquelas maquinas descartáveis), devo estar pendendo muito para a antiguidade. E se for isso, me museifiquem! Não arredo o pé: só porque é fácil, você não precisa fazer...

E olha que nem estou atacando! Acho válido, tanto na obra com senso identitário, afinal, é mais fácil se identificar na sua arte com seu rosto lá; como no sentido estético, já que, se a garota é bonita, pode ajudar, às vezes... e nem precisa sensualizar, não estou sendo porco. Em algum ponto temos de tomar consciência de nossas qualidades.

As garotas que usam de sua imagem, e não entendam usar como prejorativo, que temperam seus textos com a própria beleza (e, às vezes, trabalhando pela qualidade nas duas vias, imagem e texto, tornando-se simplesmente irresistíveis!)... e os garotos também, não serei machista (ainda que o feminismo me irrite), estão apenas usando das armas que dispõem na vida exterior à blogosfera.

E acho que é aí que o narcisista perde, a noção exata de si lhe falta sempre. O meu blog tem pouquíssimas imagens e, dentre elas, menos ainda são fotos. Mesmo assim, me vejo como uma grandissíssimo narcisista. Por quê? Talvez essa ausência, aí sim, justifique-se pelo perfeccionismo: nenhuma foto que eu tiro sai como eu acho que deveria sair.

Quer prova maior do descompasso entre a imagem que o narcisista tem de si e aquela dita como real? Se realmente quiser, eu não tenho, creio ter sido categórico o suficiente. Faltou apenas falar daqueles que, como eu, são realmente narcisistas, com ou sem foto... mas aí, julgo que estes já falam suficientemente em nome de si próprios.

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PS: Confesso à vocês que pretendia tirar uma foto, cá como estou agora, varando a madrugada de sexta para sábado, ainda com a camisa do Brasil desde o jogo, cabelo desgrenhado e acentuadas olheiras. Não achei a câmera, infelizmente. Acabou que essa falta deixou o texto mais coerente (ou eu que o deixei mais coerente pela falta?).

21 de junho de 2010

Mesmas Palavras

O delírio febril deste escritor, que tanto se preocupa e adoece por se julgar repetitivo, é real. Não preciso ser redundante para sê-lo, e ainda que talvez até o seja por minhas neuroses, a questão é que é mais uma dessas verdades inescapáveis: são e serão sempre as mesmas palavras. O que muda é a ordem ou talvez o assunto principal.

Nossa língua é maravilhosa (argh... odeio inglês, língua preguiçosa!), mas é uma prisão. Toda língua acaba sendo. Por mais extenso que seja o seu vocabulário, você vai eleger as suas favoritas e repeti-las à exaustão. E é assim tem que ser! Como escritor, eu tenho o dever de identificar, nessa eleição, a essência do homem, do ser-escritor.

Se eu vou aceitar essa vida de quem se define pela escrita, e é o caso (não teve jeito! Tentei parar, mas o escritor em mim tomou conta das outras partes), não posso ser hipócrita: um homem é o que ele escreve. Ainda mais eu que (d)escrevo aquilo que penso.

A comunicação direta das palavras-pensamento, a eleição das palavras favoritas em sua raiz (amostragem mais pura do ser-escritor, livre do que generaliza e aprisiona o espírito), ou até a excreção das mesmas (à depender do momento, "amostra" ganha aquele sentido clínico que remete a urina e fezes) já denuncia: são as mesmas palavras!

Sou, e você que é provavelmente blogueiro e pretenso escritor, maioria de quem se aventura nas páginas da internet, também é esse padrão: somos a nossa maior neurose, a repetição das palavras. Mas será só isso? Chega até a ser covardia, ou estupidez, por um conceito frágil que acabei de montar para ser testado... um "não" sai muito fácil.

Mas eu acredito que não seja mesmo! Sem deixar de pensar que tudo isso faça sentido - do contrário, não escreveria - então, tudo bem. Com certeza devem existir trabalhos e trabalhos a respeito de como a linguagem conduz o pensamento, o meu pensador favorito é Nietzsche que vê em cada língua um ritmo (afinal, o escritor dança com as palavras).

Há quem pense melhor sobre o tema, serei humilde desta vez, mas a reflexão é válida, ou, mais importante: é sincera. É nisso em que estou pensando / é isso o que eu vou escrever. A vulgaridade, que se impõe tanto em meu estilo, exige essa sinceridade com o momento. Parece que não faz sentido escrever com uma ideia que tenha de ser simulada e tantas outras abandonadas por motivos pífios como: "isso já foi dito".

Mas, voltando ao assunto, o que existe além do padrão? Existe o pensamento em si, o sentimento em si. Como romantico, por exemplo, eu não acredito em cartas de amor: acredito em cartas sobre amor, já que não é possível colocar amor no papel. É rara a transmissão de sentimentos, temos apenas nossas palavras, na maioria das vezes.

Estudando minha neurose-mor, minhas repetições de palavras, você conseguirá captar esse eu-escritor, acredito que nem será tão difícil. Poderá até prever as seguintes, se for muito hábil, mas não terá me entendido por completo se depois de 99% das previsões corretas houver 1% de falha. Se o padrão definisse, não haveria surpresas.

Somos mais que um exercício de análise combinatória, não acredito que Deus exista e já neguei boa parte da minha criação cristã, mas gosto de pensar que cada um de nós é único, como também teriam sido nossos antepassados.

Então, dá para se definir pela capacidade de surpreender? - acabo de me fazer essa pergunta, confesso. Os descaminhos de meu raciocínio surpreendem até à mim (sem trocadilho intencional). Talvez. E digo mais: pela capacidade de evitá-la também!

Varias pessoas dirão a mesma coisa e, em muitas ocasiões, com a mesma entonação e em situações muito similares, concorda? Então, como ser único? O sentimento o será e, se você tirar a sorte grande, encontrará quem te olhe nos olhos e responda com um olhar: "sei exatamente o que sente"

Ai, que dor de cabeça (metafórica e física)! Essa, sem dúvida, foi uma viagem e tanto.