Música

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21 de junho de 2012

.eu perdi

E assim me vem essa madrugada ignorante de pensamentos e sensações que não o próprio Tédio e o medo. Estou tão longe de tudo o que quero que até o meu querer se afasta: sou intratável quando me frustro. É um vazio sincero, mas dizer que não sinto nada seria muito pouco, pois gerei ao menos essas palavras.. incompreensíveis, é verdade, mas consigo verbalizar e isso deve significar alguma coisa. Verborragia?

Por que me cansam as ideias quando chego ao final da quarta linha do parágrafo? Que obsessão é essa de limitar o raciocínio? Que gozo é esse pelo controle de algo que já é meu? Realmente não entendo e, no entanto, reproduzo o comportamento incessantemente como um genuíno e exemplar neurótico pra deixar a analista orgulhosa. Será que sou realmente exemplo de alguma coisa? Sou tão comum, tão igual, tão pequeno. Meu sofrimento é vulgar... bem como minha felicidade por ultrapassar a quarta linha do parágrafo e essa sensação de que de repente tudo é possível (quando bem sabemos que não é).

Outras coisas guiam/limitam a minha escrita além de todo o formalismo que me convence momentaneamente de que minha redação é aceitável. Confesso aqui que mesmo os meus sentimentos prestam contas, a alma escritora se tornou absolutamente moral em algum momento, talvez naquele em que eu descubro que existem almas leitoras por aí, e uma forte ideia de certo e errado se impõe sobre mim. Mais que isso: mais fatal (à integridade da obra? à sua paciência?) sem sombra de dúvida é essa vontade insana de querer ter certeza. De repente, maturidade é ter certeza, é não dizer tudo o que penso. E desejo intensamente amadurecer, evoluir, sair dessa. Indignada, ela me questiona: "autenticidade pra que, né?"

Eu guardo retalhos de pensamentos e sentimentos, frases, mágoas e experiências pontuais que se tornam lições de vida e tranco tudo sem reflexão, jogo no coração como em um baú velho. Ao escrever, ao me expor, falar sobre mim mesmo, abro esse baú e lanço um olhar breve sobre as pequenices que guardei: eis minha integridade (ou autenticidade, se preferir). Fragmentos sem valor, envelhecidos, sem nexo... sem mim. Não me lembro da última vez em que escrevi sem esperar um certo resultado, uma certa reação daqueles que me leem e sempre lançando mão de um repertório limitado de ideias. Ainda não cheguei a mentir, mas sinto que estou perto, pois já omito sem pensar, ignoro tudo aquilo que não se conforma na ideia que quero formar da minha identidade, para mim mesmo e para os outros.

A justificativa para a fraude ou, sendo mais brando, a falta de uma maior espontaneidade é o medo de regredir, colocar a mão no fogo por meia dúzia de incertezas e cometer velhos enganos, mesmo tendo certo que a experiência já me transformou, que sou melhor e mais preparado do que era ontem. E aqui o pensamento fica nublado; e aqui o CD chega ao seu final e reina o silêncio - começaram os sentimentos inconfessáveis, a falta que sinto do que veio antes... a falta que me faz tudo o que não foi.

Onde estão os meus cigarros?

Sei lá, não posso disfarçar que trajo essa solidão e tristeza toda com todo o conforto de um pijama velho, sem folga ou aperto; não posso enganá-los com uma falsa austeridade ou humildade quando sinto tanto orgulho e felicidade pelas baixezas do meu espírito doente, de meu coração apaixonado: não é só Tédio e o medo é conveniência. Simulo então um enfrentamento: aquela mesma que me questiona sobre minha autenticidade, me desafia em minha determinação de guardar mágoas (ela sabe quem é), deve achar que sou passivo diante de tudo, mas minha vontade é a de abocanhar a vida, lançar-me sobre ela em um único salto e julgo que, ao menos quando escrevo, consigo fazê-lo por alguns instantes. Sei que essa vontade imensa deve transparecer em meio a toda a tristeza de meu olhar e com ele seguro tudo aquilo que as minhas mãos fraquejam em apertar junto de mim... ainda que o olhar logo se afaste ao perceber o quanto sou insuficiente diante de tudo.

Se for para insistir nesse ideal de maturidade, de lição aprendida para a conclusão do texto e das angústias de mais essa madrugada, teria de confessar o quanto ainda me fio nas paixões, das que me abalaram de verdade sinto que jamais as esquecerei, duram mais do que qualquer mágoa e compõe esse sujeito contraditório que ama o mundo e decide adorá-lo trancado no quarto o espiando através do travesseiro. 

Devo me aceitar (ou não) como essa criança crescida que lê Alvaro de Campos e reluta em ler Quintana, como se o primeiro fosse mais sombrio e "válido"... ignorando quando este se funde à Pessoa na ternura das cartas de amor ridículas; ignorando que mal sabe de Quintana ou qualquer outro poeta que não Pessoa ou Borges. E assim, persisto no isolamento, no lado único da história e amo mulheres de verdade, mas não sem abandonar a musa que faço delas, não sem admitir e superar todo o medo que tenho delas.

Mas a vida continua, a inspiração se foi e tudo o que foi dito e sentido parece mentira. Resta-me passar as mãos sobre meus cabelos e cuidar dos pequenos prazeres... como acabar um texto e achar que com isso eu resolvo ou mudo alguma coisa. Que tristeza... que vazio... que raiva! Será mesmo que eu não posso fazer absolutamente nada?!

Onde estão as minhas lágrimas?

16 de maio de 2012

Parágrafo

Essa é a hora do abismo em que a escrita não me assusta porque talvez não signifique nada; essa é hora da vida que transcorre/escorre, da inspiração, em que até os tiques do relógio se tornam música; essa é a hora do Tédio onde reina a absoluta falta de sentido, do fazer, do ser e, mesmo assim, tudo parece absolutamente estável e possível. Agora, enquanto o amanhecer se projeta e todos acordam, se retiram dos sonhos fechando as cortinas de seus delírios sinceros, a minha dor de cabeça apita pelo sono e a fraqueza de quem não tem nada além desse momento pra viver. A vida é suportável enfim, pois me tornei apenas um parágrafo.

14 de abril de 2012

Fumaça e Olhos Vermelhos

Se eu lhe disser que esse caos todo tem sua metodologia me chamaria de louco, mais louco do que já a principio pressupunha que eu fosse (quem me conhece, talvez nem tanto). Ainda assim, julgo óbvio, afinal não é o caos que me lastima e sim a ordem absoluta das coisas que sempre me coloca na posição de inferioridade para que eu possa sempre ter do que reclamar e gritar e morder e nunca, eu disse NUNCA, me mover! Não existe gozo maior do que o da ilusão de que estou morto, é isso o que me satisfaz: morrer, matar sentimentos, o tempo...

Caótico e colérico é o espírito, esse que insiste em ser jovem e acompanhar o corpo que ainda ferve de paixões e vontades e se recusa a permanecer parado: fui escalado para o papel errado! - vive ele a me gritar. Esse caos não me incomoda, dá coceira e às vezes vertigem, mas nada de substancial e que venha a danificar minimamente o roteiro de vida que gravei em rocha sólida. Dói-me ser tão absolutamente fechado, limitado e doente (por conta própria), mas qualquer rebeldia é dispendiosa e não vale a pena por saber-se (ou supor-se) que a saúde, esvaziar os pulmões de fumaça e Tédio e preenchê-los com ar puro, não passaria de um jogo de espelhos pra mascarar meu grau de inépcia para com a vida. Viver é insuportável (e ainda assim vivemos). De qualquer forma, algo, por mais inútil que seja, precisa ser feito.

Daí encontrar-me diante de um novo ponto de virada (é perecer ou modificar-me!), coisas interessantes estão por vir. Tudo o que peço é que jamais se deixe se enganar por elas, pois meu momento mais sincero é o agora... um agora insustentável e, já se pode dizer, errado (para mim e para os que me cercam). Sou o Tédio em pessoa, azul, gelado, oceânico e profundo; sou a forma que o Nada arrumou de vir à existência, mas, apesar ou até por tudo, surgiu algo, nasceu algo: amei alguém e fui Amor mais do que tudo. Nesse breve momento de adeus, houve convício entre as partes, cearam ambos, banquetearam-se de minha alma e no amor ao tédio me julguei sublime.

Mas amar sempre foi um verbo intransitivo. Agora, quando sinto, sei e escrevo, estou livre, ou já por me libertar de tudo e de mim e ainda cativo. Usa-me como uma das suas fontes, sou o momento de síntese que dá sentido ao todo, se quer um dia me entender, olhe para os meus olhos, para essas lágrimas e saberá de tudo o que precisa. Será possível ser tão transparente!? Não, é óbvio que é muito mais fácil de entender pelo lado de dentro.

Tudo o que vê é fumaça e olhos vermelhos.

5 de abril de 2012

Mise en Scène

- dedicado à Natália, sendo somente ela digna de mais esse delírio com título hipster.

Perdido em mim mesmo, ou até afogado, vagava eu sem sentido até me deparar com um filme em mais uma madrugada. Amelie é a obra e essa é minha reação a ela:

Já estava me questionando fazia algum tempo a respeito da forma como organizo a minha vida, afinal, para um neurótico isso é fundamental, repetir ritos e atribuir-lhes significados. É tudo o que resta não podendo ter controle absoluto sobre os resultados. Estou sozinho em casa, pelo menos pela maior parte do tempo e, imperando  a sós no Tédio, meu lar, principalmente a sala, conserva as minhas pegadas frescas. Sei onde se encontra cada objeto, cada desejo, cada vontade. O texto da faculdade que está "por ler" já desde segunda-feira no canto da sala, meu netbook no sofá e o fio da fonte displicentemente cruzando o chão... evidenciando um espaço sem uso ou movimento. Meu cotidiano, se fosse um quadro, seria de natureza morta.

O termo que dá título ao texto de hoje faz referência a disposição dos objetos em cena, seja em teatro ou filme, bem como o dos atores. Sim, tenho essa pretensão (ou neurose) de achar que vivo sob enredo e fotografia como num filme ou, sendo mais abrangente em meu delírio, de ser uma peça de arte. Seguindo a trilha do devaneio e analisando a disposição dos objetos em cada cômodo, vejo alguns que se impõe mais do que outros para o desenvolvimento das cenas. Sou inquieto, mexo minhas pernas como num tique nervoso, mordo meus dedos, ando pelos cômodos e as vezes sou tomado de um desejo louco de sair andando e não parar... nessas horas, mais que uma cena de fuga, também digna, pois fugir e começar tudo de outro modo tem sua poesia (ainda que infantil), sou uma fotografia borrada: não há arte.

Preciso me segurar, arrumar aquilo que me segure no quadro antes que eu me desfaça no ar. Ouvi uma vez, e é aqui que encontrei a inspiração inicial para esse pensamento, que nos filmes antigos os atores, para preencher o tempo nas cenas, fumavam. Tendo o cinema mudo atrás de si, era um paradigma a ser quebrado e um conjunto de possibilidades novas a serem testadas, mas mudar tudo de uma vez deixaria um vazio: aí entrava o cigarro. Isso é particularmente verdadeiro em um filme de Hitchcook chamado Festim Diabólico que se passa praticamente em um único cômodo, não vou entrar em detalhes, mas sendo a carga emocional do filme inteira baseado no diálogo é impressionante o quanto os personagens fumam!

Mas e eu, onde entro nisso?

Ora, não é muito difícil de imaginar: me permiti a licença moral para conservar a paz de espírito e preenchi as cenas de ansiedade com cigarros em algumas madrugadas. Um hábito que havia cortado fazia um tempo, mas não tardou a me revisitar. E fico lá fora a ver a fumaça subir, eu gosto, até mais do que a nicotina (que não vou negar que vicia... e muito!), gosto mesmo da fumaça, vez ou outra me pego sentado no vaso sanitário por cima do tampo a ver a fumaça sair pelo vitrô em contraste com a noite lá fora depois de um banho quente. Nesses momentos, ora num, ora noutro, me sinto inteiro, pensante e agudo: a cena acontece. Mas seria pouco me reduzir a fumaça, sou um pouco mais do que isso.

Tenho as mãos nervosas, o problema está nelas, talvez por isso ocupá-las com cigarro surta algum efeito e a fumaça já tenha criado alguma memória afetiva. Vez ou outra sou tomado de um desejo louco de escrever, mas da forma antiga: caneta e papel. Vejo as palavras se formando no papel, seja lá qual for seu conteúdo, e, novamente, me sinto inteiro... ajuda, é claro, se eu conseguir ler depois sem sentir asco e ocupar novamente minhas mãos em passar o texto a limpo e não em rasgar as folhas do rascunho. Mas não é sempre que surgem ideias, então contento-me em passar a mãos sobre meus cabelos, como se fizesse cachos, ou morder meus dedos, como já disse. E assim também a cena acontece.

Claro que daí tem o filme, o filme que mencionei ao início, pois ele fez com que eu me sentisse eu novamente. Conversava com Natália e ela comentou do filme, me passou músicas da trilha sonora e pareceu transtornada pelo fato de eu nunca ter assistido. Pois bem, estava eu algumas horas a frente desse diálogo bem fundo na minha zona de conforto, fundo demais para ir atrás do filme, seja no mercado alternativo, na locadora aqui perto de casa (que estariam fechados de qualquer forma) ou mesmo fazer um simples download que já seria um excesso para minha vontade... mas, enfim, eu tenho a senha do Netflix do meu primo e decidi fazer uma busca no catálogo totalmente despretensiosa: e não é que tinha Amelie! Euforicamente fui fazer o meu café com leite, coisa que vinha postergando, mesmo com vontade, desde que eu acordei. Então assisti, então fumei um cigarro, então cá estou.

Que filme!

Não vou fazer uma resenha do filme (que vá atrás se não conhece!) mas apenas mencionar uma cena: O rapaz que encanta a protagonista está seguindo pistas deixadas por ela que, tão tímida, o coloca em jogos que evitem o contato imediato. É quase uma dança e o pobre rapaz pisa nos próprios pés, frequentemente se atrapalha com suas deixas: quando tem de atender o telefone público, só o faz porque uma mulher que passa o atende antes é orientada a passar para ele; quando de frente para uma estátua que aponta a próxima pista, fica antes admirando a estátua e o dedo dela apontado sem nem sequer cogitar guiar o olhar para a direção que aponta, só o faz por fim quando um garoto diz a ele que somente um tolo olharia para o dedo de uma estátua e não para o céu que aponta (ok, desculpem-me se as descrições são confusas). 

A verdade é que... identifiquei-me com o rapaz, não que o filme tenha me tocado só por isso, dizer algo assim seria reduzir a imensidão de delicadezas que tem a narrativa ao romance que tem sim grande parte no enredo, mas não é tudo. Pois que também fiquei encarando a estátua (indagando até de que personagem histórico se trataria!) e também nunca me ocorreria atender ao telefone público, mesmo que tocando no exato ponto de encontro com alguma pessoa (algo que me ocorreu logo na primeira vez que Amelie usa essa estratégia para devolver a caixa de brinquedos para o homem nostálgico). Pude sentir a obra de forma total: de dentro, nos sentimentos de uma personagem particular, e de fora, absorvendo a beleza das cenas, o lugar das coisas, das pessoas, dos sentimentos e seu movimento. 

- e aquilo me salvou.

Natália também me dizia, confrontando a minha insólita distimia, que eu precisava achar algo que me instigasse e, sei, é tão óbvio dizer isso, mas é a arte, o que me move é a arte! Seja no meu delírio cotidiano de achar que danço com as palavras noite adentro, de imaginar minha alma como um instrumento de cordas que só é musical quando sob tensão, de sentir minha solidão teatral e cult como personagem em cena ou mesmo quando te escrevo e descrevo de formas tão diversas por não saber exatamente o que em você me provoca e aquilo que me provoca... chegando até a te imaginar de laço azul sendo que nunca usou algo parecido! E esta noite, graças a Amelie, graças a arte, mas principalmente graças a você, estou salvo. 

E nada vai me tirar isso.

14 de março de 2012

O Ministério da Saúde Adverte

Vou voltar a fumar. Decidi isso enquanto respirava tranquilo andando na calçada (ou talvez não tão tranquilo, pois mais a frente na caminhada pra casa ainda escorrego e quase caio) e estava achando muito fácil. Vou deteriorar meu condicionamento, reduzir-me a subumanidade que já toma o espírito e deixar que meu corpo também assuma a forma espectral em tosses, pigarros e manchas escuras nas chapas de raio-x.

Talvez lamentando em um leito, uns anos pra lá, ou já nas tosses, ou mais imediatamente nas lamúrias burguesas ao comprar os maços que aumentam sempre os preços, eu me encontre contente por reclamar e reclamar com razão, com objeto de desafeto: de odiar-me como ser vicioso passo a odiar o vício, mais tarde a doença e por fim temerei a morte, não mais como ideia abstrata, mas ameaça eminente a terminar minhas frases.

Tudo são flores ao pensar no regresso do velho amigo, mesmo o hábito de se escrever volta a ser algo de fantástico, ritualístico e respeitável ou, senão, até simplesmente pretensioso e esporádico, ainda assim, algo e não esse imenso nada que parece cercar a atividade. Pois de nada adianta... de nada adianta.. de nada adianta! E se é assim tão ridículo, e se é assim sem riscos e recursos, o que tenho eu a perder em (re)começar?

Perco a saúde, perco o respeito de meus familiares e entro em uma verdadeira solidão/solitude agonizante, minha tristeza teria um mérito e talvez até uma solução... ainda que distante e hipotética, pois nesse ponto já me imagino adiando o inevitável, vivendo de subterfúgios, paliativos. E com essa lucidez da tortura, por que prossigo? Ora, de lá do leito de morte, me imagino contabilizando os anos perdidos, idealizando os anos dourados, olhando para mim agora orquestrando mil formas de auto-mutilação da juventude, e com um sorriso partido seria verdadeiramente feliz (em hipótese e engano) por todo o lixo que sou agora.

Mas não fumo, porque não sou idiota, a verdade é que a ideia é que me conforta, são sempre as ideias, nada mais existe, não teria necessidade de me meter em incursões sem volta habitando um mundo de verdades transitórias. Ou talvez, só talvez, ainda exista um resto de esperanças pelo futuro - esse que também é uma ideia, mas muito mais fraca e abstrata do que as demais. Sou esse momento, sou essa ideia, porque haveria de ter um futuro fora de mim mesmo? Já acabou, já passou, já não sou. Vá embora!

1 de julho de 2010

Os Ventos da Madrugada

A solidão desta noite me fez pensar em cigarro. Fumo, tenho este mal hábito, mas por vezes fico grandes períodos sem fazê-lo. Às vezes, porque não quero comprar e gastar meu dinheiro; outras, porque tenho vergonha de pedir de quem tenha; ou até, como é o caso agora, simplesmente porque perde a graça. Só me vem uma vontadezinha fraca.

Não lembro dele pelo vício, mesmo porque este não traz memória, traz desejo. E desejo nunca é no passado, a gente sente e não lembra. Não não! O que me faz lembrar é uma saudade doída de um velho amigo e confidente. Lembro-me de rolá-lo entre meus dedos, confiá-lo meus maiores segredos e entender mais de mim mesmo (por sete, oito minutos).

Comecei empesteando o banheiro, como adolescente que não tem ideia do quanto passa longe de enganar os seus pais. Já possuía meus dezoito anos, comprava o maço com meu dinheiro e mesmo assim fumava "escondido". Gostava da sensação de perigo... e até mesmo de me olhar no espelho fumando.

Obviamente fui confrontado, até eu acho o cheiro desagradável às vezes, confessei o crime, passei a fumar abertamente e... continuei com as escapadas no banheiro. Era um ritual que fazia sentido: tinha o meu momento, assistia de camarote pelo espelho e coletava e pesava as informações obtidas em um banho bem quente.

Em determinado momento, meu amigo passou a se sentir enclausurado, ao menos é o que supus, nunca teve voz outra que não a minha, mas eu sabia: ele andava diferente. Não me falava tão diretamente como antes. Ele deve ter percebido que meu novo ritual meditativo já chegara ao seu estágio final: o comportamento irritante... ou neurose.

Levei-o para fora e o convidei para a minha varanda - um dos benefícios de se viver em casa. Minhas primeiras memórias dessas saídas datam do final do inverno. Lembro do frio, sobretudo do frio. As pontas de meus dedos queimavam de frio e a garganta pela brasa. Era incômodo e até um pouco desesperado. Digo, sair ao frio só para fumar.

Vinha a clareza da nicotina novamente, os diálogos prosseguiram. O novo ambiente sanou nossa amizade. Voltei a discursar mentalmente sobre os mais variados temas que quase sempre converginham em mim, confesso, afinal, eram meus pensamentos. Forçando explicações eu criava verdades, pelo diálogo, eu me definia: eu existia!

Desfrutando do imenso silêncio e serenidade que a madrugada oferecia, interrompida por um carro ou outro que passava na rua, olhei para meu céu paulistano sem estrelas e pensei: "São nesses momentos em que as pessoas se sentem calmas, não são?"

Forcei o raciocínio até que se tornasse outra das minhas verdades. Podia abrir mão da rebeldia do estar fumando, mas não da qualidade meditativa do ritual: queria de volta o meu momento! E é desse impulso que me lembro toda madruga, desse desejo. De cigarro, para legitimar o ritual; e de que a calma é possível se a gente acreditar.

Mas toda ilusão cai e já era hora dessa sair de cena. Não é a brisa noturna ou mesmo o cooler do sistema de refriação do computador que vão me deixar em transe, não! Pois são esses os sons que imperam no silêncio, mesmo nele sou incapaz de ouvir as batidas do meu coração - e que calma ou meditação é possível sem esse entendimento?

Tenho apenas os ventos da madrugada me levando cada vez mais para fora do entedimento das coisas complexas da vida. E não é nenhum capricho do destino! A incapacidade de ser calmo onde todos os outros seriam, mais do que do desejo pungente que força a reflexão e o processamento de cada anomalia, é do desgosto.

Sofro como qualquer um, mas ao dar nome ao sofrimento tive de justificá-lo, e até criá-lo, pelo vazio. Repeti a mim mesmo várias vezes, como nos acalorados diálogos internos movidos a nicotina, que tudo se devia ao que me faltava. Aceitei essa verdade...

E tanto me falta que possuo um buraco no peito. Vem o silêncio, não ouço meu coração, somente esses ventos! São eles que me distraem? Não, estou ouvindo muito bem: é meu coração oco que reverbera o som da mesma forma que uma concha vazia imita o mar.

25 de março de 2010

Dirty Mistress

Ingrata, suja e amoral, me envereda pelos mais tórpidos caminhos. Vício no seu canto noturno e retorno a me afogar em poesia e morte. Trago palavras e ideias, exalo os fragmentos de uma alma sem valor, tudo ao sabor das desilusões do dia.

Pensei que haveria uma grande recepção desde lado adormecido que agora desperto, mas a indiferença é completa. Nem mesmo a desistência consiste mudança, prova de que a jornada foi em vão. Se não existe salvação é por não haver vida para ser salva.

A imundice não atiça o espírito como antes, apenas degrada àqueles que me rodeiam. Tento privá-los da tristeza, mas isso seria privá-los de mim e, por consequência, privar-me deles. E justamente a solidão que tento combater, não é?

Diante disto, o que fazer? Armar um espetáculo tragicômico para não mentir e ainda assim entretê-los? Talvez. Já sou uma piada sem graça há muito tempo, mudar o repertório poderia até ser bem visto, pior não fica. Só que... saberia eu como mudar?

Emburreço a cada dia na medida em que atrofio meus sonhos e expectativas, para que pernas se não vou a lugar algum? Sob certos aspectos, minhas limitações vem a calhar. Inapto, justifico o fracasso de forma digna... digna de pena.

Enquanto não caio, recorro ao ordinário transformando-o em extraordinário em minhas fantasias. Um simples cigarro se converte em amante de uma sórdida aventura. Porque, convenhamos, continuar a sonhar com A esposa seria patético.

13 de agosto de 2009

Conto de Tristeza

Já é madrugada, o dia acabou independente de minha vontade. As horas vão passando hereges à neurose que não reconhece a linearidade progressista do tempo, vejo ciclos nessa linha reta que me põe a frete de meu passado por vezes glorioso e por outras sombrio.

Gostaria de ilustrar o tempo, de senti-lo e me apropriar dele, doma-lo. Percebo o tic-tac do relógio da cozinha e observo o passar dos minutos no mostrador ao canto de meu monitor, é tudo tão estranho a mim. Perco-me nos vazios entre um segundo e outro do relógio do computador, se as passadas do relógio análogico me mantinham marchando, a mudança súbita entre um algarismo e outro desta era digital me deixam assustado.

Estou comprimido pelo tempo e pelo espaço. A paredes do quarto parecem se fechar, me prender, é difícil respirar quando a porta não está aberta, tenho de sair. Fujo impaciente pelo corredor, passo pela cozinha e saio pela porta da frente. É muito frio lá fora, mas infinitamente mais aconchegante e acolhedor do que essa casa opressora.

Esta rotina e este novo lar me diminuem, a única maneira de se tomar ar e se regenar são nos tragos desse novo companheiro: o cigarro. Tenho a desculpa para fugir, não posso fumar dentro de casa; tenho o amor e atenção que tanto desejo, meu labrador vem me saudar e requisitar um agrado. Aqui fora estou em casa, lar doce lar.

Todo alívio causado pela nicotina, ou mesmo toda a fantasia que crio por essa fuga temporária, tornam a brisa fria do inverno, que agora congela a ponta de meus dedos, suportável. É claro, é tudo ilusão, mas minha vida tem sido toda ilusória. Minha incapacidade de se entender o simples me torna um sonhador em busca da mentira mais confortável.

Naturalmente é temporário. Meu labrador volta à sua casa, talvez pelo dito frio, o cigarro vai chegando ao fim depois de apaixonadas tragadas. É duro então perceber a realidade de que estou sozinho ao frio em uma madrugada qualquer. Sinto-me sujo, bobo e só. É hora de voltar para dentro, os carros que passam na rua de tempos em tempos já não me servem de companhia.

Fecho e tanco a porta para voltar ao meu covil de solidão, lembrando de não deixar a porta fechada. A porta aberta e a hora avançada me impedem de ligar a música, e também não me importo. Só uma alma apoixonada e vívida, ou pelo menos ignorante das intempéries da vida, poderia se concentrar nas melodias, é tudo em vão. Resta-me o silêncio.

Forço-me a escrever esse texto e exorcizar meus demônios de hoje para os que de amanhã tenham seu espaço. Fecho cada linha com o prazer e dor de quem realiza uma maratona e vai chegando ao seu final. A única diferença é que... não tem final não é mesmo?

Estou preso nos abismos do tempo, estou circulando nos loops neuróticos, estou por aí, só não aqui nem agora. Não tenho os meios para interagir com esse mundo e faço de minha dor um conto com a esperança de que ao termina-lo possa sair do personagem. Direi que é tudo mentira até que eu me convença de que o verdadeiro exista.

5 de agosto de 2009

Acabou o Cigarro

Se intoxicado por nicotina consigo versar mil palavras sobre o imenso nada dessa minha vida, se após alguns tragos teço uma rede que dá sentido a cada infortúnio e sofrimento, na ausência dessa minha musa acabo ficando um pouco mais direto e menos contemplativo.

A única imagem que me vem a cabeça que possa ser um pouco imaginativa é a de que a tensão no ar é tão forte que pode ser cortada, tipo fisicamente cortada com uma faca. Loucura!

Ando um pouco viciado no computador também, às vezes não preciso fazer nada, só ligar e ficar à frente dele. Nesse sentido o cigarro acaba sendo um pouco libertador, afinal não vou fumar no meu quarto e empestea-lo com aquele cheiro bacana, não não, ainda não sou completamente desagradável como todo fumante parece ser.

Não digo isso sob meu olhar, qualquer um que prejudique o maior número de pessoas da forma mais sutíl possível é um herói, tem gente demais por aí! Estou me referindo àquela lei que em breve vai rodar por aí: fumar em público 'is no more'.

Eu sou o cara! Não digo isso por ser um tanto quanto atraente, sagaz ou mesmo inteligente e espirituoso escritor, digo pelo meu timming extraordinário. Assim que comecei a fumar o preço do danado subiu e na sequência essa lei bacana: eu sou o cara.

Penso em parar sempre que o maço acaba, aproveito-me do fato de que possuo certa vergonha e restrição em comprar (ainda mais com essa verdadeira 'caça às bruxas' que está rolando). Estou a um passo de parar, só me faltaria a argumentação lógica do por quê parar.

Saúde? Poxa, devo me importar com anos futuros e longínguos ao mesmo tempo em que engulo que estamos a beira de um colapso global? Alguém politicamente correto, mas correto mesmo, teria um aneurisma pensando nesse paradoxo segurando o isqueiro a ponto de acender o primeiro cigarro. Uma cena linda e tocante, curti, eu sou o cara.

E é isso aí, mesmo sem nicotina da para delirar, pensar em mil situações para essa nossa sociedade esquizofrênica. A sociedade é uma droga, e nós drogados, portanto. Pegou o trocadilho? Delirar sem nicotina que é uma droga, afina nós somos... hã? hã? Pegou?

Fumando estamos apenas sendo sinceros afirmando nossa condição de fora do juízo perfeito. Isso vale para qualquer espécie de droga, quanto mais dissimulado, narcisista, estúpido ou qualquer outra coisa ridícula você for, potencialize! Vivencie o máximo do seu estado de drogado para todos entenderem porque e como você é daquele jeito.

"Então você é a favor das drogas?" - você deve estar se perguntanto. Não, só estou sem cigarros

5 de julho de 2009

Fumaça & Espelhos

Resumo dessa vida sem rumo, síntese do sentimento de amargura que tomou conta, essas são as duas últimas palavras que restaram de um escritor, em treinamento é verdade, mas um escritor. Alguém que, mesmo falando do mesmo incansavelmente com as mais diversas abordagens, se perdeu no caminho. Esse sou, essa é minha vida: entre fumaça e espelhos.

Se não me engano é originário de uma expressão em inglês que designa ilusão ("smoke and mirrors"), música inclusive de uma de minhas bandas favoritas ( Symphony X), o que pouco importa, pois nunca prestei atenção na letra. Apesar de artesão das palavras sempre vi muito mais poesia nas melodias.

[ Sem querer devanear, mas o fazendo, o filme "Letra e Música" tinha muito potencial para ser um de meus favoritos, mas acabou sendo mais uma comédia romântica barata]

Para além do sentido de ilusão, essa expressão pode ser usada um pouco mais literalmente. Dissecando-a você encontra duas palavras-chave de meu estado: fumaça, para o vício recém adquirido do cigarro; espelho, para o narcisismo incontrolável e as constantes auto-análises e reflexões sem trazer qualquer evolução para esse estado semi-depressivo.

Em alguns momentos esses dois elementos se encontravam nos inocentes primeiros tragos escondidos no banheiro quando me olhando no espelho perguntava: "Então é isso?". É isso sim, Luis, sinto muito. Sem rumo, sem palavras e as vezes sem cigarros... não, não! Isso não pode, hora de comprar mais.

Da para se viajar ainda mais sobre os significados trazidos por essas duas únicas palavras, um ser tão unidimensional e desnecessariamente complicado não merecia nada além disso: duas palavras com múltiplos significados e desdobramentos. A maioria deles sinônimos.

Só resta dizer que tudo virou fumaça, vestígios de uma vida pairando no ar dando alguma esperança de que ainda exista fogo, de que ainda exista paixão que valha a pena. E na ausência de chamas esperar que dessas cinzas ainda surja uma imponente fênix alçando voo na imensidão do céu, desbravando o desconhecido e até a própria morte! Aí está a ilusão.

Encarar o fim é complicado para quem já foi tão envaidecido, ter de recomeçar é um pecado para um sujeito calmo e preguiçoso. Aqui está o encerramento da obra, o capítulo final, a inscrição na lápide. Duas palavras, as duas últimas palavras de quem já não tem ânimo ou capacidade para buscar novidades.

24 de junho de 2009

Minha Vida Não é um Filme

Mais uma daquelas reflexões que arquivo metalmente entre uma tragada e outra no cigarro anterior ao banho. Pensei exastivamente no tópico até que esse me escapasse completamente, tento agora reaeve-lo antes que eu perca mais essa epifania.

Começo pelo óbvio que só não vê aquele que já se confunde em ilusões no dia-a-dia: não há platéia. Por mais que eu guie minhas ações com viés cinematográfico, por mais que o diretor de arte diga que a fumaça do cigarro dá a atmosfera necessária, não preciso ilustrar a tristeza se ninguém estará lá para ver.

O preciosismo para executar o simples pela beleza do espetáculo é um puro desperdício, uma heresia contra o ensinamento de se fazer o mínimo. O que me leva ao segundo ponto: as coisas são tão somente aquilo que são, a essência é conservada não importam os simbolismos que atribuo.

A vida é simples, tão simples quanto se mostra ser. Confiar nos sinais como indicativos de mudança, ou até mesmo acreditar na existência de sinais, pura bobagem. Não existe enredo, consitência, fluidez ou qualquer sentido obrigatoriamente. Se encontramos é por acidente.

O herói raramente conquista a donzela e sua tristeza ao falhar não será nada poética. Não há nada para se orgulhar, não há nada maior da qual faço parte. "A única justiça é o acaso", não a toa que nesse caos não exista nenhuma beleza.

Acho que é isso, mais um nome que dou para a mesma desilusão, um coração partido e um cigarro acesso vêm me mostrar que essa minha vida definitivamente não é um filme e que esse blog, por mais que tente, não é o roteiro.

12 de junho de 2009

Amor-próprio, Sentido da Vida e Conforto

Eu me amo. É um bom jeito de começar o que tenho a dizer, simplesmente confessar: eu me amo! Pensei ser um sujeito auto-destrutivo, ainda mais se eu for tomar meus últimos atos para análise, mas a grande verdade é que eu ainda permaneço íntegro nesse quesito.

Digo ainda porque não é de hoje que tenho essa postura, esse orgulho terrível, o egocentrismo que me mantém tímido (achando que todos estão me olhando). Pois deveriam, com alguém tão único vale atentar para os detalhes, eu valho esse esforço.

Encarando o espelho em uma reflexão pré-banho que percebi isso. Mesmo com os últimos fracassos não sentia ódio pela imagem, pelo contrário, tive é muito apreço.

Honráveis as olheiras pelas noites mal dormidas (ou devo dizer manhãs), distinta a barba rala de quem não se barbeia por estar ocupado com outras questões e notável a cabeleira que cresce selvagem pelo cumprimento de uma promessa.

[Prometi não cortar o cabelo até me formar na faculdade]

Foi-me sugerido em uma conversa com uma amiga que esquecesse desse meu lado, devido ao assunto o conselho era pertinente, mas, olhando o quadro geral, não tem sentido. Nesse mundo sensível é real aquilo que percebemos como real, se me sinto um rei o que ganho descendo do trono?

Ainda nos conselhos recebidos foi-me dito que ninguém consegue "chegar lá" sozinho e pensar o contrário é tolice. Pois pensar com a cabeça dos outros que tem me dado dor de cabeça, esse auxílio maligno que tem me matado. Hora de voltar às origens egocêntricas.O que me leva ao segundo ponto da reflexão: o sentido da vida.

O nosso crescimento é proporcional ao descolamento dessa perspectiva egocêntrica. No útero temos tudo, no asilo vagabundo (onde nossos netos muquiranas nos deixarão) não temos nada a nosso serviço. Ou seja, estou sendo infantil. Mas e daí?

O mundo não nos quer aqui, o tapa que o médico da na criança é quase simbólico quanto a isso. Mais do que acordar a criança é para puni-la por insistir em nascer. Mamãe e papai tentam construir um mundo que está sim a nosso serviço, mas ele acaba ruindo pelo decorrer natural das coisas.

Julgo que aí está o sentido da vida: trair esse processo. Fazer do mundão, não esse artificial de nossos pais, mas o mundo "de verdade", funcione para nós e tão somente para isso. Usar aquela coroa de plástico que todos temos e fingir que é cravejada de diamantes. Oportunismo é a chave e conformismo, a derrota.

Claro, isso pode demorar a funcionar, enquanto isso é bom conseguir um lugar confortável para assistir o espetáculo da vida. Digo assistir porque nossa participação é sempre passiva diante da enormidade de casualidades que acabam comandando as certezas.

A maior parte das pessoas acaba funcionando em duas frequências: na tristeza e na felicidade. Talvez raiva no meio, mas os grandes polarizadores são esses. Ambos realizam, por mais que os reles bipolares neguem, "é ruim estar triste =\" bla bla bla...

Que fiquem com o vinho barato, que se contentem em atingir o conforto por emoções rasas, eu vou um pouco mais fundo. Tenho o tédio, tenho a angústia, tenho a inquietude, tenho as paixões... uma coleção de vodka importada, uísque 12 anos e até absinto, tem de tudo.

Assim vou voltando a questão do amor-próprio, tudo se completa. Amo esse prazer em curvas perigosas, o óbvio não me agrada. Só falta encontrar quem concorde comigo, alguém aí... aceita uma dose?

7 de junho de 2009

Por que?

Por que sinto o que sinto?

Não tem valor, não tem sentido, não se encaixa. No meio das inúmeras negativas, nego meu próprio próposito, nego o sentido desse texto, ou sentido de se negar o óbvio, de que estou aqui, gostando ou não. Não fazer sentido faz sentido? Não sei.

O que é esse amor que tanto transforma? (ou devo dizer destrói?) Mirando o ferro retorcido o poeta ardilosamente acusa transformação, são só destroços! Há quem diga que o amor é subversivo, pois digo que é peça central de uma máquina de inércia.

Ao esperar a mudança nós... esperamos! Talvez nem tanto o amor, mas a promessa do mesmo nos torna bobos e inúteis. A grande desculpa é que "nem todos tem a sorte" ou mesmo que exige "esforço", aí nos conformamos com a demora. O amor é só mais uma arma de destruição em massa!

Muito se apedreja o pobre Eistein por possibilitar a bomba atômica, mas poucos lembram de malhar Camões ao perecer com um coração partido. Até entendo, a obra-prima de Eistein foi muito mais... "visual". São poucos os que enxergam os verdadeiros males.

Eu mesmo sou um tolo, quando na hora de invocar quem trouxe graça à poesia simplesmente citei o pobre Camões sem ter muita noção de sua obra, falo o que me vem a cabeça. Talvez isso me torne mais sincero, não sei. Se sei de uma coisa é que amo, amo até não poder mais (se é que existe um limite).

Amo o próprio amor por me deixar voar tão longe com tão pouco, por me deixar esquecer que eventualmente terei de pousar, por me deixar esquecer que não fui feito para voar. Se for para resumir o sentimento acho que é esse: o de inaptidão.

O êxito, o sucesso, por mais que seja farejado pelo meu orgulho nunca será meu. Seja no jogo, seja no amor. E é aquela sensação de grandeza, de que o que tenho não está a minha altura, é o que vem para equilibrar. Na falta de pernas, o gás para levantar quando cair das muletas.

Metáforas pobres à parte, isso que eu mais gostaria de gritar aos céus que não faz sentido acaba sendo digerido facilmente: o fracasso tem sentido. Como me dói esse exercício! Ao menos pareço estar adquirindo resistência, as lágrimas secaram. Séco-as com as brasas das paixões (ou até com cigarros).

Ando de um lado para o outro tragando com ar de autoridade, como se o maço no bolso me fizesse mais homem. Acaba sendo "saudável", todos meus esforços até então estavam no sentido de me ater a infância. Nas intenções vou me aprumando, só falta estratégia melhor.

Amando, fumando, não tem erro. O fogo que hoje você acende vai te apagar outro dia.