Música

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21 de fevereiro de 2014

Últimas Palavras

Dedicado a Iara que me pediu um texto... e pode ter me inspirado assim, beeem de leeeve, em algumas passagens (hahah) - espero que goste!


No meio de um estacionamento a céu aberto, duas pessoas discutiam:

- Porra, Renato, fala alguma coisa!
- ...
- Eu não te amo mais, seu filho da puta! - disse ela procurando alguma reação ou ao menos desfazer o sorriso cínico de seu namorado, mesmo achando a mãe dele até que boa pessoa e o amando profundamente.
- Raquel, para de ser louca! - direto e fatal, ninguém chama ela de louca ou sequer insinua contra seu juízo e fica assim de graça.
- Louca?! Deixa de ser frouxo e diz alguma coisa que preste, seu inútil!

Algumas pessoas passam.
Indiferentes.
Silêncio.

- Eu só queria que a gente se acertasse, eu só queria que as coisas fossem como eram antes...
- Não vão ser - novamente agudo e preciso feito flecha, pra machucar, pra arder ele sabia escolher muito bem as palavras... e muito embora seu coração sussurrasse "quem sabe podem até ser melhores daqui pra frente", apenas se calou. Tinha mais efeito assim e ele não queria se enrolar.
- Estragamos tudo, não foi? - ela parecia mais calma, resignada e até fria.
- Não, idiota! Não é isso que estou dizendo, olha... não, esquece - suas palavra vacilavam e também o seu olhar procurando pontos na escuridão da noite para se esconder.

Algumas luzes do estacionamento se apagaram.
Um carro passou na frente deles, faróis apagados, vidro escurecido.
Silêncio.

- Diz logo que não me ama também, a gente nunca ia dar certo... - não conseguia dizer isso sem ressentimento e incerteza, agora era Raquel que se furtava de olhá-lo. Cruzou os braços.
- Pra que isso? - a fuzilou com olhar inquisidor e inquieto.
- Seus amigos... você sabe, nunca ia dar certo -  murmurou com um pouco mais de firmeza e voltou a encará-lo. Não dizia para magoar, mas sabia por experiência de seus relacionamentos que era nessa parte mais franca da discussão que as pessoas se magoavam. Doía agora ter de se abrir sem pesar as consequências... mas a mataria se segurar para àquele a quem confiou o mundo tantas vezes.
- Nós precisamos de um tempo, Renato.
- Bobagem! - se segurou para não dizer "loucura".

As aulas do período noturno da faculdade chegavam ao seu término, uma a uma, o estacionamento estava repleto de transeuntes, cheiro de gasolina e álcool de carros preguiçosos acordando de seu repouso. Um minuto ou uma hora, nesse momento mais do que em qualquer outro, o silêncio entre os dois era mortal.

- Olha, quelzinha... - chamá-la pelo apelido era quase um oferta de paz, mas também lançava no ar a suspeita de que viria algo muito grave na sequência - nós precisamos tomar uma decisão!
- O que acha que é tudo isso?! - ela elevou o tom de voz o reduzindo ao longo da frase como se tomasse conta lentamente de que não estavam sozinhos.. de que não estava sozinha.
- Não sei, deixa pra lá;
- Fala!
- Não tem nada pra falar.
- Não precisa ficar na defensiva!
- ...

Sim, silencioso e mortal era uma boa maneira de descrevê-lo. Escolhia as palavras e o silêncio, se protegendo e sabendo agredir, lançando jabs e diretos sem baixar muito a guarda. Silencioso e mortal... como seus gases em situações absolutamente inadequadas.

- Por que está sorrindo? Insistiu tanto que o assunto era sério...
- Nada, só pensei em uma coisa, anjo.

Muito diferente era Raquel que tinha o coração do tamanho do mundo, quase impossível de se manter na defensiva, de guardá-lo em um cofre, sem comprometer seus movimentos. Ele não a merecia.

Não mereceu o beijo que ela lhe deu uns dias depois quando fizeram as pazes
Não mereceu os anos que passaram juntos.

Não mereceu o filho maravilhoso que tiveram!

Mas talvez felicidade não tenha mérito - e nem sorte - só uma coisa que a gente ainda não aprendeu a dar o nome e nem sempre damos valor (que é fundamental). Muitos anos depois, deitado em uma cama enfermo, Renato tentava agarrar no ar essa palavra que escapava, pois já eram poucas as palavras que lhe restavam, e quando lhe faltou o fôlego recorreu àquela que elegeu como companheira e confidente de uma vida que nem sempre foi fácil, mas com certeza foi plena.

- Raquel...por que? - ele juntava fôlego para tentar explicar a pergunta, mas...
- Ora, você não sabe? - ela sabia, sabia mesmo antes dele perguntar.
- Então...
- Eu te amo, precisa de mais do que isso?
- Sim, um monte de coisas, sei lá, é... é loucura!

Silêncio e expectativa. Ela respirou fundo e revirou os olhos - ainda era seu ponto fraco.

- Loucura, com certeza.
- ...
- Mas confiar e mergulhar nesse loucura foi uma das escolhas mais lúcidas da minha vida.

Renato tomou um tempo para assimilar aquelas palavras e sorriu com um pensamento que lhe tomou de assalto e provocou uma onda de bem estar por todo o seu corpo; sorriu ao pensar que aquela mulher passou a vida com ele só pra ter a última palavra e ganhar a discussão.

- Você é louca!
- Loucos nós dois, ainda bem.

9 de dezembro de 2013

O Quadro

Há um imperativo para a escrita de um escritor, ao menos desse escritor, que é a inspiração. Desculpe o salto, se o pego desprevenido por disparar a sentença falando-lhe assim tão diretamente sem o disfarce da história, do enredo, que tão prontamente nos envolveu em capítulos anteriores de nossa relação, mas o tempo urge e as musas dormem, tendo eu de escrever sem história, sem ideia, somente eu e você, caro leitor, confinados no aconchego de meus parágrafos.

Antes que fuja diante do temor da intimidade, o que eu entenderia  (como entenderia!), ou mesmo pelo receio de eu não ter nada além a oferecer do que um malabarismo sintático-gramático sem sentido e sem alma, peço calma, pois existem recursos para quebrar o gelo e o silêncio nos permitindo assim continuar a nossa dança. Sim, venha comigo, sem medo! É muito simples, na verdade:

Na falta de inspiração, eu a invento... como o amor. Um escritor não escreve suspirando, não se apaixona e corre às letras, não, não neste século! Ele tecla em transe catatônico, meus caros amigos... ao menos esse escritor, devo frisar novamente; desmistificando essa versão romântica confesso então que escrevo muitas vezes para apartar-me do tédio e de mim. Se meus escritos refletissem verdadeiramente meu estado de espírito seriam, na maior parte, longos e intermináveis bocejos transcritos.

Não digo com isso que eu não seja capaz de conservar amor ou que não tenha cândidas lembranças do sentimento, ele está lá e meus textos muitas vezes são exercícios de prospecção... pois não raro ele se esconde bem fundo na alma e parasitar suas raízes. Enfim, falar de amor é complicado, trabalhoso... e por isso falar de amar amando em estado apaixonado e crítico é uma perda de tempo! Quando suspiro por minha musa prefiro antes beijá-la do que escrever, a prosa vem na hora do bocejo.

Fingir inspiração como finjo amor, essa é a chave, fingir ideias que deveras me ocorrem, bem lá no fundo. Como? Lembro-me de um certo quadro que vi em uma feira de artesanato. Benedito Calixto? Embu das Artes? Wikipedia? Não tenho certeza, mas se me veio a mente agora (fechei os olhos um instante pescando as ideias que passavam) acho que posso chamar a vista de inspiradora. Um belo quadro.

Traços leves e sobrepostos de tons muito próximos, traços impressionistas? Possível dizer, ainda que com todo o receio de um leigo a ponto de falar besteiras. Era um quadro pequeno, maior que um espelhinho de banheiro, menor que uma janela. A metade esquerda do quadro é ocupado pela metade direita de um rosto feminino. O restante é ocupado por um fundo verde esfumaçado e uma mão que desce de encontro ao que parece ser o ombro da figura feminina. O braço que empunha a mão veste-se de azul até os punhos. O rosto da mulher ora parece aflito, ora aliviado sob o peso da mão estranha, os traços do quadro não me permitem decidir entre a tensão ou distensão de seus nervos. Eis o quadro.

Agora, que tal uma história para ele?

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O mundo visto de cima


Os transeuntes de um certo subúrbio altamente arborizado e bem cuidado habitado pela casse média-alta da cidade tinham um ponto obrigatório no sightseeing  de suas rotinas. Uma grande casa ou pequena mansão construída na encosta do morro que ladeava a avenida. Encoberta parcialmente por árvores de um verde vivo possuía três ou quatro níveis sendo o último deles, o mais alto, com seus cômodos perpassados por vitrais pelos quais era possível espiar seus habitantes quando a luminosidade interna e a transparência do cortinado permitia. Seu único acesso aparente era a garagem, um grande portão que se abria e fechava as 7h10 todas as manhãs de segunda a sexta, sendo incerto o horário, pelo noite, em que tornaria a se abrir. "É preciso trabalhar muito para se manter uma casa daquelas" - se comentava. Excetuando esses momentos, o número 713 da Avenida Almeida Lima era um mundo fechado.


O imponente edifício salvaguardava o segredo de seus habitantes e, sobre estes, só se sabia que eram um casal, um casal jovem que não devia ter nem trinta anos. Um proeminente advogado? Um juiz precoce? Um médico? Um herdeiro filhinho de papai? Propagavam-se palpites sobre a ocupação do moço, geralmente no silêncio das mentes daqueles que passavam, pois não era de bom tom proferir incertezas para serem dadas como fofocas por seus pares. A solução? Tornar a incerteza certa e daí já não seria infâmia, mas o bom senso verbalizado. Sem discussão, o palpite se tornou uma probabilidade indiscutível, inevitável. Com certeza era magistrado ou até deputado, seu rosto era familiar... e quanto a moça? Os passantes não pareciam se ocupar de pensar, era a mulher dele e apenas isso, um apêndice, um bibelô.

Era uma tarde de outono quando o bibelô encarava o fim de tarde através dos vitrais que prometera o empreiteiro quando da construção da casa que garantiria-lhe a privacidade por um truque de luzes, podendo ela ver sem ser vista como por trás de um espelho falso. Porém, conforme nós sabemos, sob certas circunstâncias o anonimato era rompido. E eram tais as circunstâncias, talvez o sol brilhasse diferente naquela estação, talvez a árvore desfolhada revelasse mais do que o costume... ou talvez, mais simplesmente, o empreiteiro tivesse vendido um vitral mal revestido.

A mulher do dono da casa, chamemo-na de Elise (ainda que este não seja seu nome), era dotada de mais profundidades do que seus expectadores supunham e sentia os olhares pungindo-lhe a alma. Com certeza a avistavam naquele dia, era perceptível a hesitação dos passos quando a notavam a encarar o mundo lá de cima por trás da janela, sentia que eles sentiam seus olhos e retribuíam o olhar, mas... será que eles realmente a enxergavam? Elise, que não se chamava Elise afinal, podia produzir uma imagem tão falsa e fictícia aos curiosos como o nome que arbitrariamente lhe atribuímos aqui.

"Nem tudo é o que parece ser" -  essa máxima figurava com frequência nas recentes indagações de Elise a respeito da vida, das pessoas e, principalmente, de seu casamento. Já tinham meses que o comportamento do marido andava errático, impassível... e violento. A relação de dois anos do casal parecia um sonho distante, uma ilusão que se desconfigurava criando quimeras a distanciando mais e mais da compreensão de sua própria realidade. Ora, não fazia sentido algum, mas depois... era profundamente lógico, impossível de se não enxergar os sinais. Uma conclusão suspeita, pois é muito fácil fazer previsões daquilo que já aconteceu.

Começou com um empurrão, um acidente, ela pensou. Na ocasião, discutiam por qualquer coisa em relação as despesas com as reformas da casa e ele a empurrou em direção a parede. Alguns centímetros apenas, entre homens o incidente nem seria notado. Ela chorou, naquela noite, ao lado dele. Ele não se desculpou. O episódio, por si só, não diz muita coisa. Sinais sem um contexto não significam nada e a contradição entre o romantismo do noivo e a rudeza do marido poderia ser um fortuito destempero, um acidente, dentro de uma relação duradoura e valorosa. Mas, logo se viu, era muito mais regra do que exceção.

Sempre que discordava do marido, Elise sentia o olhar do conjugue a apertar-lhe o peito como se a ameaçasse, ou lembrasse, da consequência possível de se opor a sua palavra. Não demorou muito, já não era seu olhar que a comprimia, mas suas mãos que, vez ou outra em um tom que simulava brincadeira, apertavam sua garganta e a sacudiam enquanto dizia "mas você, hein!!" quando sentia que perdia uma discussão. Elise tossia, deixava claro seu desagrado, mas seus protestos só surtiram efeito quando mostrou a ele as marcas que deixara. Assustado com a evidência ele pediu desculpas pela primeira vez. No dia seguinte, presenteou-lhe com cachecóis do mais fino trato - um aparente trato de paz.

Neste ínterim, as agressões, vistas separadamente e digeridas uma a uma, pareciam a ela suportáveis e mesmo que rotineiras uma espécie de anormalidade que logo seria sanada. Não se sentia de nenhuma maneira passiva e muito menos se vitimizava, casara-se com aquele homem por vontade própria, era dona de seu destino, e agora cabia a ela aceitá-lo na saúde e.. na doença.

E o homem estava doente, era isso que dizia a si mesma, pois na maioria das vezes em que a agredia ou, antes, "errava na medida de sua força" - preferia enxergar assim - era quando estava sob efeito da bebida. Viciou-se em uísque para provar a si mesmo e aos outros que sabia apreciar (e bem!) as coisas boas e refinadas. Seus excessos eram portanto públicos, aplaudidos e compartilhados por seus pares e invejados por seus superiores que suspiravam nostálgicos "ah, no meu tempo eu também era impossível!"

O que a machucava era esse na maioria das vezes, a sobriedade não impedia seu descontrole. Não era doença, portanto, mas custava a crer que pudesse ser outra coisa, ainda naquele tempo não entendia.

Até que começaram os socos.

Sem dizer nada, isso uma ou duas semanas após a trégua dos cachecóis, desferiu-lhe um murro na boca do estômago quando Elise passava por ele no corredor. A jovem se contorceu de dor, curvando-se e descendo ao chão deslizando rente a parede procurando ar desesperadamente. O agressor, impedindo o movimento, a ergueu pelos ombros forçando seu corpo a ficar ereto e esperou até que ela conseguisse abrir os olhos que lacrimejavam incrédulos, a mediu de cima a baixo, deu um tapinha em seu rosto e disse:

- Viu? Está tudo bem!

Desde esse dia, as agressões se tornaram mais frequentes e sem motivo, cresciam junto do contentamento do marido, e Elise não demorou a entender o porquê: elas não deixavam marcas aparentes. As evidências não transpareciam de sua intimidade, a vida seguia incólume e todos tratavam a ela e seu marido com deferência, como casal respeitável e modelar. A antítese de agressor e agredida não cabia e se seu corpo com todas as suas marcas ocultuas contrariava a versão do mundo sobre eles, e mesmo a versão que tinham suas memórias sobre aquele homem tenro e amoroso, então seu corpo e sua mente é que mentiam e sua alma deveria gritar suas dores em silêncio. E assim sendo, absurdo demais para ser verdade, ainda que se sentisse vítima, diante do absurdo de sua situação o que prevaleceu, sem sentimento de culpa ou de revolta, foi uma tristeza profunda na melancolia da mudez e da imobilidade.

Entre essa Elise que assistimos evoluir em acontecimentos de suas memórias e a Elise que mira os passantes querendo desesperadamente ser vista, entre a Elisa ciente de seu cativeiro e aquela que percebe o carcereiro a diferença é sutil - uma noite, uma noite que mudou tudo.

Ela dormia só em sua cama. Ele chegou na alta madrugada, como tantas outras vezes. Ela acordou com o barulho, virou pro lado e voltou a dormir. Ele se despiu, deitou e começou a lhe afagar. Ela o repeliu: em vão

As memórias dessa noite configuravam-se ao mesmo tempo confusas e exatas, eram obtusas, mas certeiras. Aquilo era o que era, havia sido estuprada pelo próprio marido. Não havia outro modo de descrever como ele arrancou suas cobertas e pesou seu corpo contra o dela, não havia outra maneira de classificar a invasão de seu corpo, a relação não consentida, pois ela não disse não, mas ele achou que sua mulher dormia, que consentimento pode oferecer uma pessoa inconsciente? Aliás, seria essa a questão? Será que o marido agia como agia por sua passividade, por achar ela assim tão inconsciente de sua própria condição?

A violência de seu corpo a fez assistir a tudo de cima, como se pairasse sobre si mesma para suportar a mágoa. E se essa perspectiva por um lado desconfigurou suas memórias, por outro lhe deu uma visão ampliada de sua situação, um duro entendimento. Quando tudo acabou e pode voltar, ainda que essa volta nunca tenha sido completa e uma parte sua tenha se perdido para sempre, secou as lágrimas de seu rosto que a concha oca vertera em sua ausência e desertificou o coração com um ódio sulfuroso por seu agressor e por sua ignorância. Ela não dormiu naquela noite e jurou nunca mais verter uma lágrima e assim o fez.

E era essa a Elise que, sentada em sua poltrona meditando sobre sua condição, mirava o entardecer de outono sem novidade e indiferente ao seu sofrimento que tomava o pacato bairro... e era esse o marido que a surpreendia por trás do encosto verde-musgo da cadeira afagando o seu ombro anunciando a sua presença provocando-lhe asco e terror sob o peso inexorável de sua mão. E que belo quadro formavam os dois aos passantes! Vistos de baixo, uma senhora de plácido sorriso (será mesmo que sorria? difícil ver aqui de baixo.. com uma casa dessas, como não?) e uma mão que lhe descia ao ombro, a mão firme do provedor, este oculto pelo reflexo que batia na janela. Como serão as coisas vistas lá de cima? Talvez perguntassem aqueles que passam.

Se importariam se soubessem que era um verdadeiro inferno?

--

Bom, ficou um pouco longo para uma história dentro da história e com uma carga dramática pesada o suficiente para deslocar a gravidade do texto para si, talvez o caro leitor nem lembrasse dessa voz literária que o guiou para o conto, não é? Ah... entendo, voltar a lhe falar diretamente assim quebra um pouco a magia da coisa, como um mágico mostrando seus truques. Se te desiludo, sinto muito mas... gosto de pensar em meus leitores como detetives ansiosos por destrinchar a realidade pedaço a pedaço e admirarem comigo todas as engrenagens do mundo fantástico. 

Para me remediar daqueles que ofendo e para me despedir também, pois compreendo que toda relação tem seu tempo e lugar, escrevo um outro conto sobre o mesmo quadro usando assim até a última gota da inspiração que nós criamos aqui. E nada mais adequado para isso que um conto sobre despedidas.

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Exílio

Elena retirava os brincos de pérola sentada defronte ao espelho na penteadeira. Cuidadosamente os guardou de volta na caixinha de joias de onde os tirara alguns segundos antes. Não pareciam de alguma forma adequados à ocasião, assim pensava vagamente, ainda que no fundo soubesse que essa hesitação era fruto de uma inquietação muito mais profunda. Adorava os seus brincos, do mar de incertezas que era a sua vida ainda podia se prender a esse pensamento como tábua salvadora, sim, os adorava justamente por sua versatilidade, não havia ocasião que não os vestisse bem. Era ela, Elena, que não se adequava a situação.

Encarando os próprios olhos, no reflexo, perscrutou suas memórias, os intermináveis diálogos que a conduziram até aquela infeliz decisão. Exílio, uma palavra engraçada, se pegava pensando, pois podia tanto significar um ato voluntário como algo inescapavelmente compulsório. E sua situação era compatível com a ambivalência da palavra, pois a despeito de sua partida ter sido um plano íntimo seu e de sua família e de viver em um regime autoproclamado democrático, jamais sairia fossem outras as circunstâncias políticas.

Os jornais provavelmente noticiariam sua partida com o mais cínico espanto, como um ato arbitrário e de razões particulares, até egoísta. Imaginem só, um parlamentar renunciando para sair de férias com a família, sem motivo! Elena era tomada de um desgosto profundo ao pensar na imprensa no aeroporto a assediá-la e imaginar as manchetes nos grandes portais de notícias com suas sessões de comentários repletas de leitores hidrofóbicos torcendo para seu avião cair e ela encontrar com Deus, sentenciando em caps lock que "quem não deve, não teme".

E assim seria porque a imprensa de seu país tendia a ter amnésia para certas coisas como... para as ameaças de morte que sofrera e a relutância da polícia em atendê-la por "falta de pessoal" ou mesmo o quase atropelamento de seu filho de oito anos, esse sim noticiado... mas de alguma forma a parecer que ela havia sido uma mãe descuidada. Sim, não só amnésia como desvios completos de perspectiva que nem a mais aguda esquizofrenia explicaria. No entanto, ao contrário do que se poderia supor por todo esse ladrar colérico e vingativo, ela nunca atacou a imprensa, ao menos não diretamente.

Como diz aquele treinador de cães famoso da televisão: o problema nunca é o cachorro.

Elena havia mexido em algum vespeiro e a grande ironia é que atuando de forma discreta e compromissada sem ataques personalistas dirigidos, trabalhando em diversas comissões e inquéritos, não sabia exatamente qual. Ao contrário de alguns colegas seus que tinham problemas localizados com máfias ou carteis específicos, ela simplesmente não sabia quem havia provocado. A névoa entorno de seu perseguidor e o silêncio da imprensa a fizeram duvidar de sua própria sanidade e voltar atrás infinitas vezes. No entanto, mesmo que a ameaça de sua família fosse apenas uma possibilidade, essa era uma aposta que ela não se sentia no direito de fazer e, apoiada pelo marido, se manteve firme na decisão de partir.

E partir para onde, afinal? Talvez devesse se concentrar em seu destino para aplacar a angústia da despedida. Uma Universidade conceituada a havia convidado para ministrar uma disciplina para o próximo semestre, pois era, antes de tudo, uma professora. E, assim, como mestra e como mãe, em detrimento de seu eu político, é que se exilava para proteger aquilo que considerava mais essencial em si mesma.

Exílio ou fuga? Não podia deixar de pensar exaltada pelo orgulho e acuada pela vergonha de seu patriotismo. Se por um lado havia nobreza em se sacrificar por sua família e ainda neste arranjo arrumar espaço para docência, não seria seu cargo parlamentar uma vocação maior? Pois um representante do povo, um legislador eleito, não é ao mesmo tempo pai e professor da nação, um tutor da democracia? Não, este pensamento fez Elena rir de si mesma e recuperar o brio e os brincos de sua caixa de joias; Besteira, sem dúvida! Sorrindo pela primeira vez via o ridículo da situação com um largo sorriso, branco e vívido: tais argumentos, além de profundamente autoritários e paternalistas, seriam uma fuga da fuga. Havia decido partir, pesado os motivos infinitas vezes, e assim o faria.

Seu povo não precisava de governantes que lhe dessem lições e muito menos que os tutorassem para determinado caminho, seu povo precisava, acima de tudo, de respeito e a atitude mais respeitosa que podia ter era recuar, dar-lhes espaço para que percebessem por si próprios o ardil da democracia política sem democracia social. Resumidamente, seu povo precisava, ao menos por um momento em sua história, de governantes que não ditassem o que ele precisava. E eles pareciam não precisar dela naquele momento: se os comentaristas profissionais de portais de notícia representarem mesmo que uma ínfima fração da população (e sabia que era muito mais do que isso), era certo partir... era preciso partir.

Ajudar pessoas aqui ou em outro país não fazia tanta diferença ou ao menos não diferença suficiente para que apostasse nisso a vida de seu filho, seu filho que amava tanto... o sorriso se desfez defronte ao espelho. Seu marido gritava do cômodo ao lado perguntando se estava pronta, o táxi esperava na porta e as malas no corredor. Por que doía tanto pensar nisso? Não em seu filho, mas no amor, a ideia do amor a afligia profundamente, quis chorar, se jogar no chão de soluçar feito criança, inconsolável... feito uma criança órfã. Desolada e perdida em pensamentos, mal percebeu a chegada de seu marido e levou um pequeno susto quando este surgiu atrás de sua cadeira perguntando impaciente:

- Vamos?
- Só um minuto.

Antes de partir precisava sorver desta epifania, a palavra a libertara do mal sem nome: sentia-se feito órfã, sentia-se apaixonada e agonizante com a ideia do amor pois, contra toda a razão e toda lógica, amava o seu país. O alívio da declaração deste amor secreto que se escondia até de sua portadora a tomou de profundo vigor e emoção. Declarava ali defronte ao espelho jurando a si e ao amado, sem dizer uma palavra (não era preciso, de alguma forma sabia), que voltaria, que beijaria mil vezes aquele solo e sentiria falta de todas as pequenas coisas na mais anacrônica e patética adoração. O marido calmamente repousou a mão em seu ombro em concordância e Elena, tomada da mais profunda calma mirando em seus próprios olhos na conformação d'um sorriso sereno e enigmático disse, resoluta e sincera, certa de que aquele não seria um Adeus:

- Vai ficar tudo bem.

16 de setembro de 2013

A Long Slow Goodbye

Mais um daqueles posts tristes...

Por que guardar tantas mágoas? A pergunta é suscitada quando o incauto interlocutor se depara com meu ar melancólico e taciturno para com as coisas da vida. Não à toa: a atmosfera pesa ao meu redor, como um miasma de angústia contagiando aquele que passa e isso não é visto como algo natural... e por natural entenda aqui aceitável. Tudo que é de difícil digestão, esses dias, é sentenciado como aberrante, não-natural e portanto suscetível a purificação, decantação ou tratamento esterilizante.

Mal sabe aquele que indaga que esse peso que carrego em meu olhar e espalho no ar é que me mantem são. É confortável guardar mágoas, rancores, certezas de porquês porondes e portantos cimentando decisões tomadas por nós (ou terceiros) a respeito de nossas vidas. Talvez confortável não seja a palavra, mas é um exercício sustentável de desgastes previsíveis. O coração enrijece, caleja, e nós chamamos de amadurecimento... e amadurecer, ao contrário da depressão, é natural. Agruras dos desígnios de Deus, todos envelhecem, são as asperezas das areias do tempo, o insaciável tempo a enterrar as crianças que um dia fomos... só não nos contam que as enterramos vivas, sim, nós, e não o tempo.

Saber de tanto, ou pensar em tanto sob vieses góticos, dramatizar a vida para entendê-la, e então fruí-la, é que me faz ser assim. O peso não só me faz ficar mais rente a terra como me mantém fiel a mim mesmo em minha significação particular do mundo. Mas não é só isso. O talento, ou minha falta de juízo em ir de encontro às musas de minhas inspiração, sereias a cantar de seus rochedos pra onde navego a cada madrugada, poderia ser usado para trovar, troçar, fugir da angústia, fugir de mim por fingir outras dores, fingir amores e graças. Make it 'till you become it - eis o mote. Mas sigo escolhendo conscientemente a mágoa. Por que tanta mágoa? Agora eu é que me pergunto.

Poderia eu mais que guardar a mágoa, guardar amor, ser amor, um amor que deveras sinto e senti. Poderia? O amor é inconstante, energia pura que não se armazena, gera-se, gasta-se, nas profundezas da alma. Querer guardar amor é o mesmo que tentar armazenar a energia de um raio em uma bateria, é ridículo! Assenhorar-se de um sentimento, não só o amor, mantê-lo no peito incólume sem tomar parte de sua produção/alimentação, é insustentável. A mágoa, por outro lado, é um circuito fechado.

Manter-se amuado é uma técnica de sobrevivência. A mágoa te priva de pensar, de refletir e, eventualmente, de sentir. O magoado se abriga das tempestades de sentimentos em suas certezas de como foi e será, aos poucos, dissuadindo nossa bateria interna de produzir essa energia perigosa. Eventualmente, a mágoa morre de inanição e o amor que inibia já não está mais lá, parou de ser produzido. Dói menos assim.

Amores indômitos fecham nossos olhos para as consequências de existir fazendo-nos acreditar que tudo é possível. Amores indômitos tornam a nós assoberbados também... ao ponto de esquecermos do outro, do objeto que também é sujeito desse amor... um outro que pode ir embora. E eis-me aqui, sozinho.

Ser deixado te coloca na dura decisão de cultivar esse amor sozinho, alimentar no peito o que antes pulsava em dois, sustentar o insustentável escolhendo amar dia após dia mandando cartas de amor imaginárias que nunca chegam ao remetente ou... magoar-se na cactácea angústia que não precisa de muito e resolve tudo, ocupa, mascara, dissimula: cura. A mágoa pode ser espinhosa, mas é um bálsamo para corações partidos.

No entanto, cá estou eu, nessa carta de amor que nada tem de imaginária e muito provavelmente chegará àquela a quem pertence a mágoa e a quem pertence também o amor. Talvez eu goste de sofrer ou talvez, é nessa segunda que tendo a acreditar, eu goste dela de um jeito que só uma mágoa igualmente insustentável poderia esconder, eu não sei. A mágoa se foi agora com as certezas, o que sinto mesmo é saudade.

Será um longo e demorado adeus.

24 de julho de 2013

.in the night

And so, here I am to tell this frantic tale of despair and dismay of my lost identity. Who am I?! The screams echoes through the night without a reliable answer for the mirror is tainted with madness. Who could I be then if I think myself from another me? Is there a honest point of view from within that could expose the truth from my guts?!

Others may guess I could ask for a second opinion and lend my destiny to a helping hand by seeing my reflection through the eyes of another. Too risky 'cause no other than me can hear the voices, no other than me can feel my delirium. For the very same madness that fogs the reality of me is me.

There's no way out and automatically no way in. As one said long ago, we're all separated by abysses and our only enjoyment capable of minimally suppress the anguish of loneliness is to stare it together. And so, here I am to share this pathetic thoughts poorly written in that I dare to call my second language.

It is said, I read something about it in an article, we change our personality by using another language. So I deccided to give it a try. Apparently works better on people that besides learning another language immerse in that other culture (immigrants) or simply people who live bi-culturally from the cradle receiving multiple language stimulus from their parents. It's not my case, you can obviously see by my poor phrasing. But seems to works for me as well.

So what did a discover from myself? My English statements puts me as teenager very in to progressive-heavy-melodic metal, I guess. The English triggers this cultural aspects of my personality, my musical identity if I may say. The epic tone is unavoidable and words as such doom, night, mirror and madness echoes consecutively in my head.  

This could lead some to think this exercise just increases the fog creating another mask burying even deep my troubled identify with another charade. But it's not quite like that. From the constant stops looking for the correct form of words and phrases and the role that I assumed (a teenager immersed in epicness), I produce this act, this motion that retrieves me something of me. The shattered identity becomes whole once more.. but only for a second.

After I press send this won't be me any more and the battle for my true form will continues. For the motion of life is restless and truthful truth of our identities won't lay peaceful in this or any other words. Maybe I should keep all this to myself then and live the lie of the constant true, say to the people that I merely learnt something, another successful step in the ladder of self-knowledge.

... when the truth tonight is that I know nothing, and not knowing is true wisdom. From dust to dust, dusk till dawn, we build and rebuild ourselves in the hourglass of time. So the question actually is who am I now? I'm just tired of writing, forget it. English is hard.

5 de julho de 2013

Nada para ler aqui

Já não é de hoje, parece que odeio tudo o que me ajuda a escrever. Amaldiçoo a frieza dos computadores, faço desfeita para as poucas laudas em branco que restam em meu caderno e julgo ferozmente como débeis e frágeis as ideias que me chamam. Parece que nada é digno da palavra, esses dias e a vida não merece mais do que um longo e quase interminável bocejo. Não sei se culpo a minha falta de imaginação, de ânimo - de inspiração - não sei mesmo se há algo pra culpar. Talvez o silêncio que se impõe deva ser um fenômeno a ser respeitado ou temido.

Do respeito eu não tenho certeza, não tanto do objeto a ser respeitado (o silêncio), se o merece, mas uma incerteza acerca do respeito em si. Sou uma alma indolente, nem digo rebelde, mas indolente, característica daqueles que tiveram pouco ou nenhuma dificuldade na vida no que resulta um narcisismo exacerbado que acha feio o que não é espelho. Respeito aquilo que me engrandece, qualidades e falhas, elogias e críticas, mas tudo tendo a mim como referencial absoluto sem espaço pra alteridade. 

Minhas mãos não tem calos e minha alma não tem couraça, é lisa, fraca e gorda, muito gorda de tudo o que sorveu por aí servindo a gravidade de meu ego-centrismo que tem sempre de tomar em sua órbita o universo e um pouco mais. De respeito, então, entendo pouco, mas de temor...

Há sempre algo que se esconde pra além do universo, o desconhecido conhecido-inefável - o silêncio - esse buraco negro que pode reduzir toda a Vida ao tamanho de uma caneta, uma caneta que não escreve, pois tomou a  quem escrevesse e engoliu a própria História; um buraco branco, supernova, explosão de todas as cores que ao ser tudo também não é nada... e os mais científicos que me perdoem as digressões imprecisas. É tudo tão estúpido, eu bem sei!

Estou recolhido dentro de mim, ainda que exposto no óbvio de meu ser. Sou um sujeito calado, quase monástico as vezes, mas nunca me arroguei de ser incompreendido ou misterioso, o que me sossega os lábios e os punhos que já não procuram lavrar palavras é a certeza de que nada tenho a falar. O nada me ocupa, natural então que se fosse externar algo seria uma mera execução ou movimento de nada - o Tédio.

O nome desse blog não é à toa.

Aqui, não procuro instigar ninguém, nem a mim mesmo, pois minha ansiedade-depressão já é suficientemente carregada de auto-estímulos; aqui, contento-me em descarregar uma parte de mim mesmo que, ao sair, não é mais minha e repudio; aqui, faço um truque com polias e roldanas para travar ou movimentar o silêncio e distinguir quem sabe uma ou outra vontade do espectro de sentimentos que só mostra o nada, como uma roda de várias cores a girar mostrando apenas o branco. 

Sou assim, analisado assim, metaforizado assim, uma profusão de ansiedades de querer e ser tanto que, de alguma forma, me imobiliza em um sono que muitas vidas não dariam conta de sanar. E o que faço é dormir, escrever uma coisa ou outra que me dê paz ou sono, por vezes lutar contra o que sei ser uma condição natural e inercial de meu ser, mas sobretudo dormir.

Sozinho, eu não vou a lugar algum. Respeito demais esse meu próprio universo para fazer qualquer coisa, somente a alternidade me fornece o incômodo, o impulso, para agir. Há quem vá dizer que a verdadeira mudança vem de dentro, mas o máximo que posso fazer, ao menos nesse momento de angústia, é empoderar-me do conhecimento de minha condição e esperar por alguma ajuda ou mesmo companhia e me assistir enquanto definho se nada puder ser feito.

Um possível surto de auto-piedade, reconheço, meu orgulho não me deixou tecer as últimas palavras sem um certo incômodo, mas, por mais terríveis e fatalistas que elas pareçam ser, são a mera constatação de que eu me sinto sozinho. Não deve ser condenável que alguém se sinta triste por isso. Poderia sim pedir qualquer ajuda, mas fui eu quem buscou esse exílio, sou eu quem cria o silêncio e nele devo perecer.

Chega a ser irônico, um escritor cuja a grande capacidade é a de instigar o silêncio.

De tudo, me resta abrir o meu coração, expor o que eu já considero exposto e óbvio. Cada dia que passa eu sinto como se estivesse me afogando em um imenso nada, as vezes acho que nada resta, mas sempre há algo que destoa, um sentimento que vem a superfície, respira e depois torna às profundezas. Imploro então aos amigos, aos amados companheiros de minha jornada até aqui, que atentem aos detalhes, ao que destoa de minha superficial indiferença.

Se é verdade que é possível escolher aquilo que somos, escolho ser a exceção de minha própria essência, sou o exagero, sou a minha capacidade de amor e seus feitos extraordinários, sou o próprio amor; sou um vir-a-ser tímido, uma promessa, sou o futuro de mim presente nos sonhos que compartilho com quem estiver ao meu lado. E se não sou totalmente tudo isso, sei que sou parte e peço que ao menos me seja permitido ser reconhecido como tal.

Mas, pensando bem, com toda essa conversa mole melodramática parece que sou também um grande e imenso clichê. Terrível, parece que estou escrevendo um elogio fúnebre a mim mesmo! Bom, que fique a sugestão, uma alteração aqui e ali e esse texto pode servir a esse propósito no futuro. Enquanto isso, vou voltar ao silêncio, isso tudo é muito ridículo.

27 de junho de 2013

Minha Melhor História

- dedicado a Iara, espero que te faça se sentir um pouco melhor.

Nunca fui muito bom na escrita, certos recursos da linguagem fora da alçada da gramática me confundiam. Desde que aprendi a ler e escrever aos seis anos, tenho essa sensação de ser um estrangeiro em meu próprio idioma, me atrapalhando com o que poderia ser considerado banal e óbvio pela maioria das pessoas. Digo isso tudo para ensejar um pedido de desculpas pelo relato a seguir, pois estou muito aquém dos grandes contadores de histórias com suas metáforas e metonímias, contento-me portanto em apenas contar os fatos conforme eles aconteceram. Espero que baste já que os fatos sucedidos, tão atípicos, por si só, já são suficientemente capazes (eu espero) de entreter o caro leitor.

Aconteceu há alguns anos quando eu ainda me aventurava em encontros às cegas. Lembro-me de que à princípio os temia por sempre me imaginar vendado em uma mesa de um restaurante boca de estrada na frente de um caminhoneiro barbudão, por pirraça de amigos. Descobri, mais tarde, que só era "às cegas" até que se chegasse ao local do encontro, sendo então um combinado às cegas... e às vezes nem isso! Já que geralmente mostravam uma foto pra mim (ligeiramente enganosa, mas clara) de quem eu deveria encontrar afim de que eu a aprovasse e, eventualmente, a reconhecesse ao encontrá-la.

Pois bem.

Lá estava eu em um encontro às cegas arranjado por colegas da faculdade. O "lá", no caso, era uma cantina italiana de muito bom gosto escolhida por mim. Não por tentar impressionar a menina, fosse por mim eu ficava em casa lendo os artigos para escrever minha monografia, tarefa que à época me tomava muitas noites solitárias. Aparentemente, isso era considerado deprimente por meus "colegas", o que acabou por se mostrar proveitoso, pois os motivou a apelar: apresentaram-me uma das garotas mais bonitas que eu já houvera visto (em foto). Recusar a proposta ia levantar mais perguntas e mais condescendência do que simplesmente aceitar o convite e ver no que dava, ademais... eu estava com vontade de comida italiana de boa qualidade e era (e ainda sou) péssimo cozinha.

Então, lá estava eu a espera dela. O "lá" vocês entenderam, só faltando o "ela" pra explicar... que é, aliás, o motivo de querer contar essa história pra vocês. Esperei uns poucos minutos em minha solidão pacífica e tão criticada por meus colegas até que ela chegasse. Era tão bonita quanto na foto, senão mais, mas de alguma forma diferente, difícil de pensar e ainda mais de descrever a um terceiro, como no caso aqui, você, leitor.

Seu nome era muito bonito, extravagante e delicado, assim como ela ao me pedir licença ao sentar e me cumprimentar, um nome que eu sabia associara a ela para sempre, afinal ela teve que me mostrar um cartão ilustrado que tirou do bolso de sua jaqueta que trajava por cima do leve vestido - e essa é uma cena difícil de se esquecer. Seu nome era impronunciável, era uma pintura, literalmente. Ela sorriu, eu sorri de volta sem esconder meu estranhamento e minha simpatia que crescia cada vez mais no decorrer da conversa. 

Um papo muito legal, mesmo.

Falamos de muitas coisas, todas as coisas, as minhas e as dela. Em meio ao silêncio eventual entre os assuntos, ela tirou um dicionário, parou em uma página qualquer e apontou uma palavra - a conversa seguiu. Sentia-me tranquilo nas conversas, pois naquele exercício vi que podíamos realmente falar sobre tudo. À princípio tranquilo, mas depois intimidado ao pensar que talvez não tivesse como acompanhá-la, pois inteligente e espirituosa, não cessava de crescer em minha admiração. Percebi-me cada vez mais fundo na cadeira, encolhendo, apequenando-me diante dela. Foi assustador, tentei me segurar e fiquei lá, pequenino, no espaço que me parecia imenso entre a ponta da toalha de mesa que eu segurava e o assento da cadeira. Ela carinhosamente me pegou em suas mãos e me colocou em seu ombro.

Durante o resto do jantar, desfrutei daquela sensação ao mesmo tempo assustadora e agradável, eu ali tão pequeno e frágil e, para minha alegria, próximo dela. Por um tempo, só conseguia olhar para a curvinha de seu pescoço e curtir o aroma de seu perfume que de lá despontava - do ângulo que estava, não podia muito mais e nem tinha pressa. Aos poucos, na demora que era percorrer toda a sua pele com meus pequenos olhos, apercebi-me de outros detalhes como seus olhos discretamente castanhos, os rebeldes cabelos vermelhos soltando-se de seu coque em torno das orelhas e seu brilhante e belo sorriso. Quando sorria, era possível ver todo o ambiente se iluminar, as velas nas mesas, os lustres, as lamparinas nas paredes ganhavam uma cor mais forte e vívida. À princípio suspeitei de curto-circuito, oscilação de energia e etc, o que ainda não explicava as velas.

Não foram poucas as vezes em que pensei que estivesse louco, pois nada daquilo era normal e, mesmo assim, ninguém além de mim parecia notar. Continuei lá ao lado dela, de qualquer forma, disposto a ser maravilhado pelo resto da noite. Intranquilo que estava, deixei-a desconfortável, pude ver e, quando começava a suspirar de angústia temendo afastá-la com meus receios de decepcioná-la, ela me envolveu com seus lábios, me abraçou com um beijo, tão pequeno eu estava. Aquela boca macia e doce levou todos os maus pensamentos embora me cobrindo em sua doçura. Voltei a minha postura e minha estatura, pagamos a conta e saímos do restaurante.

Era uma noite bonita e estrelada de inverno, uma raridade em nossa cidade de céu esfumaçado, o que nos fez decidir empregar uma caminhada até a casa dela que não ficava assim tão longe. Demoramos coisa de uma ou duas horas até sua porta, não saberia dizer, meu relógio parou assim que a vi pela primeira vez. Andávamos bem próximos um do outro conversando pela cidade vazia, não me apercebi de ninguém no trajeto e, pensando bem, não me lembro de outras pessoas além de nós dois e o garçom que nos serviu na cantina, momentos antes. Havia algo de especial nela, com certeza, não era tarde o suficiente pra justificar tamanha ausência nas ruas ou no restaurante, tenho quase certeza era sexta-feira a noite. Sem falar em meu relógio parado, era um bom relógio.

Chegando lá, ela me convidou para tomar um café eu aceitei, pois adoro café e não queria ir embora, não conseguiria. Ardilosa que era, em algum momento da noite, havia atado um nó em meu pulso com um fio de linha bem forte que ela usava pra me puxar para perto de si toda vez que eu tomava mais de dois pés de distância de seu corpo, não dava pra ficar longe. Dentro de sua casa, ela desatou o nó e me pediu que aguardasse sentado no sofá que ela me prepararia o café. Quando retornou, depositou a xícara na mesa de centro, pulou em meu colo e me deu um beijo que me deixou tonto. Foi incrível, fantástico e ao me afastar e recobrar os sentidos percebi que ouvia fogos de artifício, fato que se repetiu durante toda noite em todos os muitos beijos que demos. Fogos de todas as cores, estalinhos, estouros - parecia final de campeonato, o que era estranho, pois tenho quase certeza era sexta-feira... talvez fosse quinta ou quarta, dias mais comuns de jogos, vá saber.

Não me lembro de ter tomado café naquela noite ou de sequer ter encostado na xícara, pois tão logo chegamos, já estávamos no quarto dela bagunçando os lençóis e jogando as roupas para o alto. Eu podia sentir o calor de sua pele aumentar conforme nos abraçávamos sem o intermédio de nossas vestimentas  e bagunçava seus cabelos cor vermelho-paixão, assim os chamei pois quando os tomei em minhas mãos perto de sua nuca percebi que estava profundamente apaixonado. Bom, o que aconteceu a seguir, em meio a abraços cada vez mais apertados e beijos intensos, o leitor pode imaginar. Nossas peles arderam de desejo naquela noite e enegrecemos levemente os lençóis com a chama branda que aparecia em torno de nossos corpos. Por vezes hesitei com medo de me queimar, mas não muito, era gostoso e valia qualquer risco, um segundo depois já estava em seus lábios ouvindo fogos de artifício. 

Eita torcida animada era aquela!

A manhã seguinte foi um pouco embaraçosa, tive a impressão de que ela não me queria ali quando acordei e lhe sorri, mas ela desviou o olhar mirando a janela do quarto. Caía uma chuvinha fina e ela me pareceu melancólica e pequenina, encolhida dentro de si. Como na noite anterior, quando eu houvera encolhido, tratei eu de confortá-la, de envolvê-la em meus braços e enchê-la de cobertores, pois parecia muito fria, bem diferente da criatura em brasa que me ajudara a chamuscar a roupa de cama. Ela disse que estava doente e eu me ofereci pra passar o café ou fazer um chá e perguntei se havia algo que eu poderia fazer - ela não respondeu. Ficamos ali abraçados por algum tempo, adormecemos por um instante, ela acordou inquieta, parecia ter tido um pesadelo e disse que era melhor eu ir embora. 

Assenti com a cabeça.

Antes de colher as roupas pelo chão do quarto e ir embora, dei-lhe um último beijo, sem saber que seria o último - sem fogos dessa vez, apenas uma dor lancinante no peito que me fez ter de sentar por um minuto. Olhei para ela atônito e percebi que era isso o que ela sentia. Não sei se por orgulho ou por sentir que eu não poderia curar seu mal estar sem me contagiar, mas ela sem dúvida me queria fora dali. Achei por bem conceder esse desejo, afinal não era e nem sou médico, não a conhecia o suficiente e não sabia como ajudá-la, talvez me afastar fosse de alguma forma benigno. Na verdade, eu tive medo de não saber como agir, não sabia das coisas, era muito jovem. Fui embora.

De volta às ruas, abrigado no ponto de ônibus vi que meu relógio voltara a funcionar e eu duvidava se em algum momento tivesse parado de funcionar - duvidei de muitas coisas daquela noite, ao longo dos anos. Contei tudo depois aos meus colegas casamenteiros que propiciaram meu encontro, mas me tomavam por poeta, lirista, enquanto eu jurava que as coisas aconteceram tal qual eu as relatava, que era uma garota fantástica e coisas fantásticas aconteceram enquanto eu estive com ela. Acusaram-me de estar apaixonado e eu assumi prontamente, mas ainda assim achava absolutamente lógico e sensato que qualquer um que tivesse a oportunidade de conhecê-la iria se maravilhar tanto quanto eu. Não sei se meus colegas me levaram a sério, apenas me olharam meio abobados, sorriram e se beijaram suavemente. Não havia mencionado que eram um casal de amigos? Não sou muito bom em contar histórias, havia alertado.

Infelizmente, não tornei a vê-la e fiquei sem saber se era porque era uma pessoa solitária, se não gostou de mim o suficiente pra abrir mão da solidão ou mesmo se eu houvera a magoado por tê-la deixado quando mais precisava. Em minha cabeça, refiz muitas vezes as minhas atitudes sem que eu tivesse saído de seu lado, naquela manhã ou no resto de nossas vidas. Um tempo atrás, meus amigos me segredaram qual era o problema, parece que ela sofria de uma condição muito rara: possuía um coração grande, mal cabia no peito, um problema de formação que resultava em dores agudas e periódicas. 

Não podia ajudá-la, mesmo se tentasse, logo vi. Mas também percebi que, de uma forma muito egoísta, eu não mudaria um detalhe sequer dela, pois tudo a fazia maravilhosa, até mesmo seu coração grande e dolorido. Foi difícil depois tocar a vida onde os relógios nunca param e os beijos não explodem em cores no ar e me envolvem todo o corpo. Seja como for, tenho muito mais a agradecer do que lamentar. Sempre que conto essa história as pessoas parecem ficar felizes, o que é, por si só, outra coisa fantástica sendo que nunca fui muito bom contador de histórias. Falando sobre ela, exatamente como era, eu, um orador tão chato e matemático, me torno lirista, poeta. Por isso, obrigado. E onde quer que esteja, espero que tenha encontrado a cura para uma vida sem tantas dores com um coração enorme.

27 de maio de 2013

Cassandra

Jorge queria escrever sobre o amor, mas só via rostos mutilados quando fechava os olhos, suas mãos arriscavam mesmo assim palavras gentis sobre o carinho das memórias que o abraçavam. Agarrava-se às suas mais cândidas lembranças enquanto, do fundo de sua alma, brotavam sentimentos de pânico e medo do esquecimento de tudo aquilo que lhe trazia conforto, de tudo o que era... de quem era. E assim sentiu e soube que poderia simplesmente deixar de ser de uma hora pra outra, nada estava realmente ali e seus sentimentos, pensou, talvez fossem tão reais e, ao mesmo tempo, pequenos e frágeis quanto a sua caligrafia ébria no papel.

No medo de deixar de ser, cristalizou sua existência na partição fictícia de sua alma escrevendo de si na terceira pessoa. Sentimentos em parte inventados, em parte sentidos, tão sério, real e fiel quanto poderia ser para não se desmanchar no ar entregando e sentenciando a configuração de seu ser em uma folha de papel. O que era pior, ter uma ideia clara, absoluta e inescapável de si, saber-se sempre o mesmo, mas inteiro... ou afogar-se no vazio de uma existência que poderia ser o que quisesse, mas justo por isso, não era nada?

" A leveza e o peso" - dizia de si para si ao apossar-se da leitura incompleta de Milan Kundera (leu apenas o primeiro capítulo) como se tivesse "capturado a essência" já no premissa da obra por pura sagacidade. Jorge era assim, pretensioso, tanto que nomeou-se procurando Borges na ficção de si, ele que já possuía o prenome de Camões e não largaria um cânone da literatura se não pudesse se agarrar a outro. " A leveza e o peso" - repetia confuso enquanto tragava em falso, garganta fechada ao vício destreinado, restando-lhe sorver da fumaça fora de si a subir subir e sumir na vastidão da noite.

O escritor escrito, Jorge Luis, títere animado para dar voz e vida a cenas que seu portador não arriscava encarnar sozinho, encarava mais uma vez os abismos de sua alma da varanda de seu quarto, do alto de sua pretensão de querer saber tudo. A cena estava posta: em uma única mordida, inclinando-se levemente para as profundezas, julgou ter apercebido-se de todos os sabores da vida (de sua vida)... sem mal chegar ao recheio. Repetia triunfante "A leveza e o peso, essa é a chave!"

A fumaça o fazia mais uma vez divagar, lembrar e esquecer, na trilha das sensações, a marca do desejo no aroma impregnado na roupa que ressuscitava vícios do vício como tragar com um olho fechado e tocar a cinza freneticamente ao sabor de sua ansiedade. Memórias - tantas! Mas que se apagavam, desgrudavam das roupas, do pulmão que já não aceitava aquele veneno e o fez deixar o cigarro pela metade. O vício já não lhe pertencia, expulso de si, era somente possível guardar tanto quanto sua pele o permitia. Vícios e, indo mais além em suas considerações, desejos talvez fossem uma coisa de pele, de aderência e esquecimento. E não são os desejos o que existe de mais pulsante em nossa existência? O que existe de mais nós em nós mesmos?

Nada resistia, não havia fixidez natural, era necessária a intervenção pelo trauma de uma cicatriz ou a beleza de uma tatuagem. "Curioso" - pensou, pois há anos lutava com a decisão do que marcar a tinta em sua pele, se havia realmente algo nele que merecesse ser vestido para sempre. E um para sempre tão débil, pois desbotava e era possível remover. Jorge não se satisfez com essa imagem para uma lembrança eterna e tratou de construir outra, algo verdadeiramente eterno e imutável. Criou assim, dentro de si, uma essencialidade imóvel e atenta, não dormia e nem morria para bem além do esquecimento, protegida de tudo aquilo que pudesse lhe desfigurar, protegida, inclusive, dele mesmo!

"NÃO!" - um grito seco e rouco ecoou pela escuridão.

Sentindo a existência lhe escorrer por entre os dedos ele sentou, brandiu a bic azul esgrimando com seus fantasmas no velho caderno, certo de que atingiria em cheio a raiz de sua melancolia em um único golpe -  o ato de esquecer é que é eterno - colocou-se a escrever - pois o repetimos incessantemente afim de que a existência se torne suportável, dia-após-dia esquecemo-nos de quem somos e nos reconstruímos para não sentir por completo a passagem do tempo no processo. Amadureci: envelhecer também é uma arte.

O escritor se deitou incerto do que fizera, mas já fazendo, existindo, mesmo sem saber. Enunciava-se para o mundo sem temer esquecer ou impor conclusões que durassem para sempre. Podia não ser aquilo, podia não ser ele no papel, mas qualquer coisa era melhor do que o silêncio, não precisava mais ter tudo aquilo que sentia como comum, vulgar e irrelevante, o que fustigava, maus endêmicos e profundos eram coisa séria e verdadeira. E, de verdade, o mal me devorou naquela noite.

Encolhido na cama, esperei que acabasse, que me atropelassem de vez aqueles demônios desfigurados de meus pesadelos. Passou, e se quisesse dar um nome não seria exagero chamar de pânico, terror noturno ou, simplesmente, de Cassandra na onda de cientistas nomearem desastres naturais com o nome de mulheres. Cassandra, como a filha que nunca tive - diz o rapaz convencido de que seria uma acaso assombroso se gerasse descendentes - nomeio então minha criatura, o mal sem rosto e de propostas obscuras que me ronda e assombra, tornando-me cativo desses questionamentos tantos fadados a confusão e ao equívoco. Nomeando-o assim, torno-o, eu cativo de meus propósitos, em inspiração, em texto.

E eu, o que sou? Se domestico a angústia ao nomeá-la, domada torna-se a existência se também a ela couber um nome? Respondo no decreto de um começo que dê fim a dúvida cercando a identidade: este escritor não assinará mais como Escritor em Treinamento, nem mais irá enveredar na angústia só para curar o Tédio. Hoje sou Luis R. P. Mendes, não por ser mais verdadeiro, mais fiel a imagem que meu ser projeta no mundo, mas por recurso cênico - sai de cena o lamento perdido e entra um indivíduo igualmente questionar, mas ativo, atuante e ainda escritor. Não nasci para deixar ao mundo meros fragmentos de mim, os dias futuros conhecerão a minha obra, o meu legado.

Adeus (e até logo).